A  HISTÓRIA  DA  QUÍMICA

 

                         A descoberta do fogo

 

A descoberta do fogo pelo homem é um fato ocorrido há milênios numa época que não podemos precisar. Há evidência de que o fogo já era usado pelo homem na Europa e na Ásia, no paleolítico posterior e no neolítico.

Uma lenda grega relativa ao aparecimento do fogo, imortalizada na tragédia Prometeu Acorrentado de Ésquilo (525 a.C-456 a.C), conta que o gigante Prometeu roubou o fogo dos deuses e deu-o ao homem, sendo por isto condenado a uma terrível tortura.

No primeiro século antes da era de Cristo o poeta latino Lucrécio e o arquiteto Vitrúvio já especulavam como teria o homem primitivo descoberto o fogo.

Sabemos que o processo químico da combustão envolve a combinação do oxigênio da atmosfera com o carbono contido nos materiais orgânicos: folhas, capim, madeira, etc., reação iniciada por um agente energético natural ou intencional.

Raios também podem incendiar florestas mas sua ação é esporádica.


Entre as causas naturais a combustão espontânea é a mais provável: o fogo poderia surgir na savana sêca espalhando-se pela ação do vento.

Produzir o fogo provavelmente resultou da observação de que brasas resultantes da queima natural de madeira podiam ser reativadas pela ação do vento, ou pelo sôpro, fazendo a chama reaparecer.

A propagação do fogo pelo aquecimento de galhos ou folhas sêcos provavelmente indicou que a chama poderia ser iniciada com temperatura alta.

A descoberta de que o atrito entre dois pedaços de madeira sêca elevava a temperatura até produzir uma chama incipiente, que podia ser ativada pelo sôpro, deu início à jornada tecnológica do homem, no seu controle da natureza.

Há evidências materiais do uso do fogo (não sua produção) em cavernas usadas pelo homem de Pequim,(Pithecantropus pekinensis), em época anterior ao período paleolítico.

Ainda recentemente o método do atrito, na produção do fogo, tem sido encontrado entre povos primitivos, por exemplo, entre os índios.

Os sistemas utilizados pelos povos primitivos de várias partes do mundo mostram grande inventividade nos dispositivos mecânicos que promovem o atrito.

Outro método que foi desenvolvido consistia na percussão de duas pedras para a produção de faíscas.A observação de que fagulhas tem o poder de começar um fogo e que o choque de alguns minerais produzem faíscas levou a este processo de iniciar uma combustão.

Há evidência de que este processo já era usado na era paleolítica pelo emprego de piritas de ferro sob forma de pequenos nódulos ou de sílex, material extremamente duro relacionado com o quartzo.

Posteriormente descobriu-se que as fagulhas eram mais fortes percurtindo sílex com ferro ou aço.Este processo persistiu até o século XIX na Europa e, no Brasil ainda era encontrado em 1930.

Em 1827, na Inglaterra, a invenção do palito de fósforo iniciou um processo fácil e seguro de produção do fogo.

Tal sistema tornou-se universal e de uso cotidiano corriqueiro.

 

 

FOGUEIRAS NO BRASIL, TÊM  IDADE DE 50 MIL ANOS

 

Escavaes de Nide Guidon, no Piau, podem mostrar ocupao mais antiga que no Chile

 

Como Tom Dillehay, que esperou duas décadas antes de ter confirmada a antiguidade do sítio de Monte Verde, no Chile, a arqueóloga brasileira Niéde Guidon está confiante em que seu trabalho também acabará reconhecido. Ela fez descobertas interessantes, na década passada, no Parque da Serra da Capivara, uma reserva de 1.300 quilômetros quadrados, no sudeste do Piauí.

As escavações feitas na base de uma estrutura rochosa de 150 metros de altura, a Toca do Boqueirão, revelaram a existência de carvão típico de fogueiras, com 48 mil anos. Mas eles podem ser ainda mais antigos.

A teoria defendida pela arqueóloga é a de que o local já era ocupado há uns 50 mil anos. As fogueiras, interpreta, foram feitas por pequenos grupos de caçadores pré-históricos. Especialistas norte-americanos, entre eles Betty Meggers, argumentam que esses carvões são de incêndios naturais.

Niéde Guidon disse ao Estado que o argumento de Meggers não pode mais ser invocado: "Escavamos uma área imensa, além da base da Toca do Boqueirão, e não encontramos um único sinal desses restos de fogueiras". Se a arqueóloga norte-americana tivesse razão, rebate Niéde, "então encontraríamos muito mais dessas formações que só existem no refúgio da Toca do Boqueirão".

Também David Meltzer, que participa das investigações em Monte Verde, esteve em Serra da Capivara. Para ele, os seixos de quartzo lascado encontrados na base do abrigo, que Niéde Guidon sustenta terem sido esculpidos por mãos humanas, seriam formações acidentais, produzidas por pequenos blocos rochosos que despencaram do topo rochoso. A antropóloga brasileira refuta esse argumento com base na gravitação newtoniana. Ela escalou a formação e, de lá, atirou os blocos para demonstrar que eles não podem descrever uma curva e se depositarem exatamente na base do bloco. A rocha é ligeiramente arqueada e por isso mesmo forma um abrigo natural para agrupamentos humanos. A teoria sustentada por Niéde é que pode ter havido uma chegada por mar e não houve um ponto privilegiado para a ocupação da América, caso da ponte de gelo de Behing. A América, diz, "certamente foi ocupada de várias maneiras diferentes".

                            

 

                                   Uso da pedra, osso, ouro,cobre e ferro (meteorítico


Durante milênios, desde que surgiu, o homem utilizou a pedra como material para a confecção de instrumentos de uso diário na defesa e no ataque, na caça e na disputa intertribal.

Foram descobertas, em 1997, na Alemanha, lanças com ponta de pedra usadas por caçadores há 400.000 anos.

Também descobriu-se que o homem primitivo já habitava as estepes geladas e áridas da Sibéria ,perto de Yakutskh, na região polar ártica, há 300.000 anos e já fabricava instrumentos de pedra.

Foram encontrados indicios de que há 800.000 anos, na Espanha, uma pequena comunidade (50 pessoas) foi vítima de práticas canibalescas com retirada dos órgãos através de incisões feitas com lâminas de pedra.

A extensão do uso da pedra está amplamente documentada e representada por peças tais como machados, lanças, punhais, cefaideiras, lâminas para esfolar animais e raspadeiras de pele,etc., que eram produzidas pelo método de percussào cuidadosa com outras pedras.

Este processo permitia dar forma ao objeto pela produção de lascas e daí a denominação deste período evolutivo como idade da pedra lascada

O sílex era o material mais adequado à esta prática e a procura de material de melhor qualidade levou o homem do paleolítico a explorar pedreiras e minas cujos restos ainda são encontradas hoje.

O polimento dos artigos produzidos em época posterior, a partir do neolítico, resultou em melhoria na borda cortante das facas, machados, lanças, etc, tecnologia que facilitou aplicações na agricultura que começava ser praticada.

No paleolítico superior os objetos e as armas passaram a ser mais sofisticados com o uso de outros materiais como o osso que era usado na ponta de lanças, nos arpões, nas agulhas.

Os ossos eram trabalhados por meio de pedras afiadas e desbastados e polidos até atingir a forma desejada.

Os chifres ou galhadas dos antílopes eram mais convenientes para alguns usos facilitando o trabalho.

No período paleolítico o homem desenvolveu o arco e a flecha.

A ponta das flechas era feita de osso e muitas vezes serrilhada.

Anzois eram feitos a partir de conchas marinhas.

Objetos caseiros, como pentes, cabo de facas e outros instrumentos, eram feitos com ossos e pequenas esculturas entalhadas em marfim.

Ouro

O metal mais antigo utilizado pelo homem parece ter sido o ouro embora o cobre e o estanho também tenham que ser considerados.

Era obtido a partir de depósitos aluviais sob forma de pepitas que eram separadas pela ação da água.

O mesmo método ainda é utilizado por garimpeiros no Brasil.

O conhecimento do ouro no paleolítico levou o homem a descobrir suas propriedades de maleabilidade e dutilidade sendo, mais tarde, usado no preparo de enfeites e joias.

Cobre


Cobre nativo é encontrado em muitos lugares, geralmente montanhosos, como pequenas partículas, ou mesmo pepitas ou nódulos, de côr verde violácea ou verde negro.

Pode-se apresentar, também, sob forma de pequenas placas ou formas arborescentes.

Quando riscadas por um objeto pontudo ou raspadas ou trabalhadas com percussão com pedras ou martelos de pedras revelam um miolo metálico.

Estas formas já eram conhecidas por volta de 5.000 a.C. e utilizadas para fazer pequenos objetos (anzois, arrebites, etc.) .

Descobriu-se também ( cerca de 4.200 a.C.) que uma massa metálica trabalhada pelo martelo torna-se progressivamente mais dura e que volta a ser maleável se fôr aquecida (recozimento).

Esta tecnologia permitiu que a partir dos nódulos se produzissem folhas metálicas que podiam ser trabalhadas a frio (marteladas) e recozidas sucessivamente .

Usando outra pedra lapidada como bigorna e machados de pedra adequados o artesão paleolítico podia dar forma diversas aos objetos de cobre metálico.

Os depósitos de cobre nativo não eram muito abundantes fato que levou ao desenvolvimento de tecnologia para a obtenção do metal a partir de minérios que eram abundantes em certas regiões.

Este estágio ocorreu entre quinhentos e  mil anos mais tarde .

Ferro ( meteorítico)

O ferro de origem meteorítica foi usado pelo homem deste período para fazer ornamentos.

Este tipo de ferro contém muito níquel como impureza e tem propriedades semelhantes ao aço, sendo difícil de ser trabalhado com os instrumentos existentes feitos de pedra ou cobre.

Apesar disto foram encontrados amuletos, anéis e outros objetos pequenos feitos de ferro meteorítico.

A tecnologia do ferro desenvolveu-se e tornou-se importante muito mais tarde quando foi reconhecida a existência de minérios de ferro e desenvolvidos os fornos de alta temperatura.

O homem paleolítico desta época sabia que o ferro timha origem celestial.

Mil e duzentos anos mais tarde os Sumerianos utilizavam uma palavra cujo significado era "ceu-metal " e os Egípcios outra que sigificava "cobre preto vindo do céu" para designar o ferro meteorítico.

 

 

                                                   Aparecimento da metalurgia

 

O aparecimento da metalurgia está ligado à descoberta da fusão e moldagem do metal em uso, o cobre, e à redução de seus óxidos, carbonatos e sulfetos, encontrados em minérios.

Os óxidos e carbonatos, (cuprita: Cu2O, malaquita: CuCO3.Cu(OH)2, azurita: 2CuCO3.Cu(OH)2), são facilmente reduzidos com carvão vegetal produzindo o metal puro.

Os sulfetos, (chalcopirita: CuFeS2, chalcocita : Cu2S, bornita: Cu3 FeS3, covelita: CuS), embora mais difíceis de serem reduzidos, continham como impureza outros metais, (ferro, arsênico, antimônio, bismuto), mas eram muito utilisados.

Estes minérios eram encontrados em minas e depósitos que se espalhavam por extensas regiões da Europa e da Ásia .

Esta descoberta ocorreu entre 3.500 e 3.000 a.C. e só foi possível com a invenção e desenvolvimento de fornos, cadinhos e foles feitos de couro, que permitiam atingir a temperatura de fusão dos metais em uso (cobre:1083ºC, ouro:1063ºC).

Os primeiros fornos eram pequenos com cêrca de 30 cm de diâmetro.

No seu interior o ferreiro colocava camadas alternadas de carvão e minério.

Sob aquecimento ocorria a reação química e o metal liberado se solidificava misturado com a ganga e as cinzas.

Os lingotes produzidos tinham entre 20 a 25 cm de comprimento e 4 cm de espessura mas suficientes para a produção de pequenos objetos.

Prata e chumbo são encontrados nas excavações feitas no Egito, no perído pre-dinástico (2.500 a.C.-3.000 a.C.) e na Mesopotâmia, no período Uruk III (3.000 a.C.) e nas cidades de Ur e Lagash.

Estes metais aparecem juntos porque eram obtidos a partir do mesmo minério, a galena, de ocurrência frequente e muitas vezes associada a minérios de cobre.

As minas principais se encontravam nas regiões montanhosas da Armênia, nas terras dos Hititas.

Os reis de cidades mesopotâmicas e assírias faziam expedições constantes de mercadores à Asia Menor para comprar prata e chumbo que eram vendidos em lingotes e transportados em recipientes fechados para evitar pilhagem.

A produção de prata expandiu-se, posteriormente, para regiões gregas e para a Europa.

A galena no Egito foi muito usada como cosmético, para pintura dos olhos.

A produção de prata e chumbo suscitou o aparecimento das técnicas de redução de minérios sulfíticos e o uso da copelação.

Na redução da galena faz-se previamente o cozimento para a desulfurização parcial e depois a redução do oxido de chumbo (litargírio).

Um fôrno aberto simples era usado.

Camadas alternadas de minério e carvão eram aquecidas e ar soprado no fôrno por meio de foles.

Algum enxofre era eliminado como óxido ficando um resíduo de galena e sulfato de chumbo.

Num momento adequado deste processo a temperatura era aumentada afim de que o litargírio, a galena e o sulfato de chumbo reagissem produzindo chumbo que se acumulava no fundo do fôrno.

O restante de enxofre saía como dióxido.

Obtinha-se uma liga de chumbo e prata com impurezas de antimônio, cobre, arsênico e estanho.

A prata era separada por copelação: a liga de prata e chumbo obtida era fundida em um cadinho de barro poroso .

Passava-se uma corrente de ar para oxidar o chumbo e os outros metais.

O litargírio formado, em estado de fusão, contém os óxidos dos metais de impurezas e era parcialmente eliminado da mistura com um jato forte de ar.

Outra parte penetrava nos poros do cadinho.

Ao resfriar-se o cadinho a prata pura formava uma massa sólida no fundo do mesmo.

O cobre e o chumbo, sob forma de pêsos e pequenas barras, eram usados como moedas nas trocas comerciais.

Mais tarde foram substituidos pelo ouro e pela prata que estavam associados numa relação de prata:ouro de 1:8 e durante muito tempo 1:10.

O cobre forma ligas com o estanho, chumbo, antimônio e o arsênico.

A liga mais comum é a com estanho, chamada comumente de bronze.

Esta liga começou a ser utilizada por volta de 3.000 a.C. e foi obtida provavelmente fundindo-se minérios de cobre e estanho.

O estanho é encontrado na cassiterita, minério que contém óxido de estanho, SnO2.

A redução deste minério para produzir estanho puro tornou-se conhecida mais tarde, entre 3.000 e 2.000 a.C., quando bronze com diferentes proporções de estanho passou a ser produzido.

Neste período o bronze passou a ser usado mais intensamente na produção de objetos por ser melhor do que o cobre puro.

Eram fabricadas armas, espelhos, estátuas, machados e objetos caseiros.

Comparado ao cobre o bronze é mais duro, mais tenaz e é melhor para ser moldado.

À medida que se aperfeiçoava a obtençào dos metais pela descoberta de processos rudimentares de tecnologia os objetos de pedra eram substituidos ou copiados (forjados ou moldados).

Este processo de substituição foi, entretanto, muito lento.

Ainda em 2.000 a.C. no Egito e 1.500 a.C no Egeu e depois do final da idade do Bronze (início da idade do Ferro,1.200 a.C.), na Europa, muitos objetos de pedra ainda eram usados.

A redução dos sulfetos de cobre que se passa a temperaturas mais elevadas era feita em fornos colocando-se camadas alternadas de minério (chalcopirita, CuFeS2) e carvão.

O processo é mais complicado do que o que usava carbonatos.

Era necessário recozer primeiro o minério para eliminar excesso de enxofre e óxidos voláteis de impurezas (arsênico,bismuto, antimônio) .

Depois fundí-lo com o carvão e sob ar soprado, para oxidar parcialmente o sulfeto cuproso fundido, obtendo-se óxido cuproso.

Este reagia com o sulfeto cuproso remanescente formando cobre e dióxido de enxofre.

O cobre com pureza de 95% era então separado da ganga.

O chumbo e a prata sempre estiveram associados porque ambos eram obtidos a partir do mesmo minério, a galena.

A desulfurização da galena por recozimento produz o litargírio que é um oxido de chumbo.

Há produção de sulfato de chumbo e alguma galena permanece na mistura.

Quando sai uma quantidade adequada de enxôfre a temperatura é elevada e a galena, o litargírio e o sulfato reagem produzindo o chumbo que se acumula no fundo do fôrno.

O excesso de enxôfre é eliminado como dióxido.

O chumbo forma uma liga dura com a prata e contém impurezas como cobre, estanho, antimônio, ferro (Ezequiel,XXII,19,22).

A prata era separada por copelação e o chumbo resultante do processo era razoavelmente puro.

O chumbo e o antimônio eram usados para facilitar a moldagem do cobre na fabricação de objetos.

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O ferro não meteorítico é encontrado como magnetita (Fe3 O4 ), hematita (Fe2 O3 ), ocre (Fe2 O3 hidratado) e siderita (FeCO3 ).

Estes minérios eram encontrados em abundância no Egito, na Asia Menor, nas montanhas do Cáucaso, na Armênia e em outros lugares.

Apesar disto o ferro só começou a ser obtido regularmente e usado muito tempo depois do cobre (1.200 a.C.).

Isto talvez tenha ocorrido devido à alta temperatura de fusão do ferro (1535ºC).

A redução destes minérios nos fornos utilizados para obter bronze fornecia uma massa esponjosa cheia de buracos e sem aparência metálica.

A ganga podia conter algum ferro reduzido sob a forma de nódulos duros que podiam ser separados pelos ferreiros.

O ferro obtido tinha um pouco de ganga, pouco carbono, era duro mas quebradiço.

Entretanto era maleável ao rubro e podia sob a ação de martelos tomar uma forma desejada.

A quantidade obtida era pequena e muito usada para fabricar ornamentos.

O domínio da técnica de produção do ferro inaugurou, mais tarde, o que se denomina de Idade do Ferro (1200 a.C.-50 a.C.).

Os primeiros objetos feitos de ferro imitavam os de bronze e ferro e bronze eram usados juntos em muitos objetos.

Havia grandes centros que trabalhavam com ferro como o de Doliche, uma cidade no norte da Síria.

Cêrca de 800 a.C. a tecnologia do ferro já tinha atingido seu apogeu.

Muitas cidades e reinos importavam ferro que era revendido ou distribuido aos ferreiros para fabricação de armas e outros objetos.

Os ferreiros, pela sua importância na comunidade, ganharam muito prestígio e em tôrno de suas atividades há inúmeras legendas na literatura antiga ( Vulcano, ferreiro e deus do fogo , na mitologia grega).

As propriedades do ferro podem ser alteradas pela quantidade de carbono que contém.

O ferro maleável contém muito pouco carbono mas o ferro fundido contendo entre 1.5 e 5 por cento de carbono é duro e quebradiço.

Se a quantidade de carbono fôr menor do que 1.5 por cento e maior do que 0.15, temos o que se denomina de aço.

Foi inventado na Armênia pelos Cálibes, povo subjugado pelos Hititas, cêrca de 1.400 a.C..

Com a queda dos Hititas (1.200 a.C.) os ferreiros migraram e espalharam o conhecimento pelo Iran, Palestina,Siria e Grécia.

Mais tarde atingiu o sul da Itália e o resto da Europa.

Minas de ouro eram encontradas na Asia Menor, Persia, India ,Arabia e no Egito, no deserto da Núbia.

Esta região era muito rica de ouro (Núbia significa "terra do ouro").

Este metal ocorria como incrustações no quartzo ou em depósitos aluviais de onde era extraido sem dificuldade.

De um modo geral o ouro continha impurezas de prata, ferro e cobre o que lhe conferia cores diferentes e era muito usado em joalheria.

A purificação do ouro era feito pelo método usado com a prata, copelação: misturava-se chumbo com o ouro e oxidava-se o chumbo e as impurezas com ar soprado.

O ouro refinado ficava no fundo do cadinho ou copelo.

Em um outro processo podia-se retirar a prata transformando-a em sulfeto de prata.

Aquecia-se o ouro impuro com stibnita (Sb2 S3 ) e carvão vegetal.

Obtinha-se sulfeto de prata e esta no final era retirada por copelação.

A obtenção do ouro a partir do amálgama, isto é, da solução do ouro no mercürio, e a evaporação deste posteriormente, provàlvemente era conhecida neste período.

O teste de pureza consistia em fundir o ouro durante o tempo necessário para evaporar eventuais impurezas pesando-o novamente no final.

Ou pelo método da pedra de toque (pedra de joalheiro) riscando-a e comparando a risca com a deixada por ouro puro.

Este processo já era conhecido e usado em 1500 a.C..

Há inúmeras obras de joalheria feitas com ouro, na Babilônia e no Egito, que atestam o alto grau de perfeição atingido pelos artesãos desta época.

Coloração artificial dos metais e das ligas era obtida com tratamento da superfície metálica.

Os Egípcios obtinham uma superfície de côr rosa com o ouro aquecendo-o com traços de ferro

 

Alexandre o Grande

 

Alexandre o Grande (356 a.c.-323 a.c.), que tinha sido aluno de Aristóteles, quando passou a reinar, conquistou as nações do Oriente e expandiu o império Macedônico dominando o Egito, a Mesopotâmia , a Pérsia e até a India.

Consolidou o poder político na Grécia, que na ocasião era constituida de pequenas cidade-estados, e amalgamou a cultura e os povos de seu vasto império sob a influência da cultura grega que se difundiu extraordináriamente.

Um fluxo de informações e cultura de regiões afastadas, como a India e a China, e deslocamento de pessoas e mercadores se estabeleceu, expandindo o horizonte do pensamento grego.

Alexandre incentivava o casamento dos gregos com as mulheres dos povos conquistados tendo êle mesmo casado com uma princesa oriental.

Também promovia a instalação de assentamentos gregos nas terras conquistadas.

Assim, no Egito, fundou Alexandria

no delta do Nilo, em 332 a.c., cidade que se tornou um verdadeiro centro de confluência das culturas orientais e ocidentais, um verdadeiro caldeirão de idéias filosóficas, científicas e religiosas, que se manteve por vários séculos, após sua morte prematura aos 33 anos.

Os seus generais dividiram entre sí o seu vasto império, estabelecendo o sistema de sátrapas.

O Egito coube a um de seus melhores generais, Ptolomeu, e mais tarde, a sátrapa da Babilônia passou ao contrôle de Seleuco, outro general, que fundou uma cidade, Seleucia.

Em 305 a.c. os sátrapas transformaram-se em reis, sendo estabelecida a dinastia dos Ptolomeus, no Egito.

Seleuco, por sua vez constituiu um império que incluia a Asia Menor, a Mesopotâmia e a Persia.

O reino Egípcio e o império oriental Seleucida abrigaram a cultura grega, influenciada pelos novos povos e por novos pensamentos que surgiam e não mais centrada no individualismo dos filósofos clássicos cujo último representante de importância tinha sido Aristóteles.

A filosofia grega clássica, entretanto, permaneceu como um núcleo de idéias que iluminou o caminho para o desenvolvimento social, político, religioso, científico, filosófico e cultural do mundo ocidental perdurando até os dias atuais.

A cidade de Alexandria sob o domínio dos Ptolomeus, que incentivavam a cultura fundando universidades, museus e a famosa biblioteca de Alexandria, passou a atrair pensadores, filósofos, cientístas, religiosos e tecnólogos de todo o mundo, cujos pensamentos interagiram criando novas doutrinas, novos conceitos mas também sendo submetida à violência e à ambição política dos impérios.

A Alquimia nasceu em Alexandria como resultado de uma almágama de idéias filosóficas e tecnológicas provindas do oriente próximo, de filosofias da India e do Irã, da filosofia e ciência gregas, com ênfase nas idéias de Aristóteles sôbre a matéria e nos conceitos de Pitágoras sôbre os números.

A idéia central dos alquimistas era de que os metais comuns, cobre, chumbo, mercúrio, estanho, ferro, eram formas impuras de metais mais nobres, como a prata ou o mais perfeito de todos, o ouro.

A busca empírica do processo de transmutação destes metais impuros suscitou o uso e o desenvolvimento das tecnologias já conhecidas desde a antiguidade e a experimentação com outras novas que iam surgindo.

Procurou-se intensamente encontrar uma substância que adicionada aos metais vulgares, mesmo em pequena quantidade, promovesse a transformação.

Esta substância mágica ficou conhecida como a "pedra filosofal" ou lapis philosoforum, que mesmo adicionada em pequena quantidade teria a propriedade de transformar imensas quantidades de metais vulgares no nobre ouro.

Ao lado destas idéias de conteúdo mais prático e experimental floresceu também uma filosofia mística, mais religiosa, simbólica, cabalística e mágica, que se nutriu das idéias da antiga Mesopotâmia, da India, da China, dos filósofos gregos não materialístas e dos Egípcios.

Esta corrente mais mística, entretanto, prevaleceu e ganhou destaque por mais de 1000 anos, até o século XVII.

Este imenso império cultural, onde o fluxo de informações e conhecimento se processava principalmente através das rotas dos mercadores e das caravanas, como a Rota da Sêda, que se estendia até a China, constituiu o que denominamos de cultura helênica.

Sua expressão mais visível e concreta se encontrava nos milhares de pergaminhos da biblioteca de Alexandria, o grande centro cultural da época, que foi posteriormente destruida.

 

            Alquimia experimental no período helênico (300 a.C-300 d.C)

 

Os egípcios herdaram das civilizações antigas as práticas básicas da tecnologia química, principalmente dos mesopotâmios, adaptando-as e utilizando-as em sua sociedade, como mostra uma extensa representação pictórica encontrada nos papiros.

A mentalidade egípcia era mais inclinada às aplicações práticas, concretas, enquanto os gregos eram mais afeitos ás questões abstratas.

No Egito helenista apareceram os primeiros tratados alquímicos, e o mais antigo deles, de cêrca do ano 200 da era Cristã, escrito por um autor de nome Democritos (não o famoso filósofo grego), também conhecido por falso-Demócrito, mas suposto ser Bolos de Mende, um egípcio helenizado, tem um nome sugestivo das duas tendências da alquimia : Physika kai Mystika, isto é, "Coisas Naturais e Místicas", contendo receituários para fazer prata, ouro, assim como métodos de tingimento de tecidos e coloração de materiais com imitação da côr da prata e do ouro.

Os receituários invocavam a teoria dos elementos dos gregos e mostravam a influência da Astrologia que originalmente cultivada na Mesopotâmia havia se difundido por todo o mundo antigo.

As receitas experimentais sempre continham no final uma máxima indicando um princípio cumprido, como por exemplo,"A Natureza triunfa sôbre a Natureza" ou outras afirmações pertinentes à comprovação de conceitos alquímicos.

Nos séculos subsequentes, temos Zósimos de Panópolis ( 300 d.C.), Olimpiodoro, um grego-egípcio (425 d.C.), autores que contribuiram e comentaram os trabalhos alquímicos no período helênico.

A prática da alquimia depois de Bolos de Mende envolvia o estudo da composição das águas, aprisionamento e liberação dos "espíritos (essência)" dos corpos, "morte"e "ressureição" dos metais por meio de destilações e sublimações sucessivas, e outras operações, com o fim de transformar os metais vulgares em ouro.

Zósimo descreve vários processos como fusão de metais, solução, calcinação, filtração, sublimação, cristalização e adota uma sistematização dos materiais classificando-os como metais, líquidos obtidos por destilação alcoolica (espíritos), vapores e fumaças.

Zózimo também escreveu um livro sôbre produção de cerveja que era uma bebida muito popular no Egito.

É nas obras destes autores que são encontradas referências com descrição detalhada dos equipamentos usados pelos alquimistas helênicos.

São encontrados distiladores, condensadores, frascos, balões, banhos-de-areia, banhos-maria, fornos, tripés e outras peças comumente usadas em laboratórios.

Um tipo interessante de equipamento era o chamado kerotakis uma espécie de condensador de refluxo.

Outro era o tribikos, uma espécie de condensador feito de metal, cobre ou bronze, em que a parte central superior possuia três tubos com saída em forma de bico que podiam gotejar o líquido destilado em frascos ou recipientes.

Este sistema é atribuído a uma alquimista, Maria a Judia, ou Mirian, irmã de Moisés.

Ela também é tida como tendo inventado o sistema de aquecimento denominado de banho-maria e o kerotakis.

Os alquimistas de Alexandria trabalhavam com metais com a esperança de conseguir transformá-los em ouro.

Partiam do princípo de que os materiais que usavam deviam ser levados ao estado mais próximo possível da matéria primordial formadora dos corpos.

Portanto, era necessário aquecê-los prolongadamente, na presença de umidade, afim de transformá-los.

A côr dos produtos era considerada uma característica muito importante nas transformações que ocorriam, principalmente a côr da prata e a do ouro.

Ao serem submetidos às transformações alquímicas os materiais inicialmente perdiam suas qualidades metálicas comuns, fornecendo comumente uma massa escura ou negra.

Denominava-se este estágio de melanosis (escurecimento).

Com a continuação do processo atingia-se o estágio de leucosis (embranquecimento ou côr da prata) e, mais tarde, o de xantosis (amarelecimento ou côr do ouro).

O estágio final começava com a iosis (violeta), que daria ao ouro côr violeta iridescente, chegando-se, então, ao produto desejado.

Esta sequência, posteriormente, foi simplificada e padronizada até o estágio de amarelecimento.

Assim, por exemplo, o cobre, por aquecimento, tornava-se negro devido à oxidação ou por conversão em sulfeto (melanosis) e se tratado com orpimento (sulfeto de arsênico) tornava-se branco (leucosis).

A fase final, xantosis, era obtida com o tratamento com theion hudor- (água sulfurosa ou divina)- obtida a partir de cal, enxofre, vinagre ou urina de criança, por aquecimento e filtração do líquido vermelho-sangue resultante.

Os procedimentos alquímicos, de um modo geral, concentravam-se em tôrno das operações de destilação, onde tudo é misturado, dissociado, onde há a união de tudo, combinação ou separação.

Estas operações, mais tarde, adquiriram uma conotação mística, com uma linguagem fortemente simbólica que prevaleceu após 300 d.C. até o século XVII, cêrca de 1.400 anos

 

Alquimia na China

 

A alquimia na China, como no ocidente, era uma prática que envolvia o conhecimento de metais, mas, diferentemente, era muito relacionada com a medicina.

Os chineses desde tempos remotos utilizavam o ouro, a prata e o cobre.

Conheciam o chumbo e o mercúrio, que era obtido do cinábrio, e eram usados na preparação de vários compostos.

A alquimia surgiu na China mais cedo do que em Alexandria, entre 500 e 300 a. C., e desenvolveu-se sob a influência do Taoismo, uma religião mística fundada por Lao-Tzu, no século VI a.C..

Os chineses acreditavam que o mundo era constituido de cinco elementos: fogo, terra, água, metal e madeira.

Consideravam também, na sua cosmogonia, a existência de contrários, do mesmo modo que Heráclito, na Grécia.

Estas idéias foram cristalizadas no conceito do Yin e do Yang. Yen é o princípio feminino, que representa frieza, escuridão, qualidades negativas, representada pela terra ou pela lua, pela secura, enquanto Yang é o principio masculino, com qualidades positivas, movimento, atividade, representado pelo sol.

Estes conceitos são básicos no Taoismo, uma filosofia que surgiu no século VI a.C., expressa em um livro, o Tao Te Ching, de Lao Tzu.

O Tao, que significa caminho ou percurso, era uma força que controlava todas as coisas e tinha surgido a partir do vazio e da tranquilidade do universo inicial que era transparente e sem forma.

Este conceito abstrato tranformou-se nos séculos seguintes e passou a incluir o estudo da natureza e a busca de uma explicação da formação do mundo o que levou a uma cosmogonia centrada no conceito de Yin e Yang.

Na parte alquímica experimental os chineses buscavam produzir ouro e encontrar a pílula da imortalidade como mostra o livro de Wei Poyang, chamado Chou i ts’an t’ang ch’i, de 142 d.C., que contém uma parte mística e a descrição de processos práticos expressos em linguagem simbólica.

Mais tarde, em 281 d.C., surge outro livro, o Pao-p’u-tzu, de Ko Hung, considerado o maior livro de alquimia da China.

Este livro contém descrição de processos para preparar elixires baseados em ouro, preparação de derivados do estanho com aparência de ouro, operação que acreditavam, transformava o estanho em ouro.

Neste texto é indicado que o "ouro alquímico", isto é, uma forma solúvel em água, preparado segundo o receituário fornecido, é superior ao ouro comum, como ingrediente dos elixires da imortalidade.

É descrita, também, a preparação de sais de mercúrio e arsênico.

Um livro posterior, muito famoso, é o de Sun Ssu Miao (581 d.C), Tan chin yao chueh ou Os Grandes Segredos da Alquimia, com receitas práticas para preparar elixires para conseguir a imortalidade.

Ensina,também, como obter remédios e fabricar pedras preciosas.

Outro texto desta época é o San-shi-liu Shui Fa ou Os trinta e seis métodos de dissolver sólidos em água, que ensina como obter soluções aquosas de vários minerais e, particularmente, do ouro e da prata.

Os equipamentos que os alquimistas chineses usavam incluiam fornos, cadinhos, destiladores e o ting, uma espécie de caldeirão suportado por três pernas.

A padroeira dos alquimistas era uma deidade chamada a Senhora dos Fogões cuja imagem simbólica era a de uma mulher com vistosa roupa vermelha.

De forma semelhante ao mundo ocidental, em séculos posteriores, a alquimia chinesa separou-se numa parte exotérica, puramente química, ou wai tan e uma parte mística, esotérica ou nei tan, em que a simbologia usada para os conceitos era calcada nas operações práticas de laboratorio.

Uma comparação entre os conceitos alquímicos dos chineses e as do mundo ocidental mostra que desde tempos imemoriais, mesmo antes das conquistas de Alexandre, houve contato constante entre a China e as civilizações ocidentais por força das rotas dos mercadores, entre as quais a mais famosa é a Rota da Sêda.

Enquanto no mundo ocidental os alquimistas procuravam transformar metais não nobres em ouro e obter um elixir os chineses consideravam mais importante a obtenção do elixir da imortalidade e remédios para a cura de doenças.

 

  Alquimia entre os Árabes

 

A origem da alquimia árabe é dificil de ser estabelecida mas, certamente, seu cultivo floresceu com o advento do Islã, após a morte do profeta Maomé, em 632 d.C..

Antes deste período, entre 400 d.C. e 700 d.C., há poucas informações disponíveis mas há evidências de que as idéias gregas de alquimia foram obtidas através do Egito, da Síria e da Persia.

A cultura islâmica foi o resultado da influência Bizantina, Nestoriana e Judia, que tinha como componente fundamental as idéias gregas e helenistas.

No século seguinte à morte do profeta o Islã conquistou a Pérsia, a Ásia Menor, o Egito, a Palestina, o norte da África e parte da Europa, Gilbratar e Espanha.

Em 732 d.C. a arremetida árabe foi detida em Poitier, França.

Nos séculos VII e VIII os árabes consolidaram seus domínios e dedicaram-se a absorver a cultura dos centros de saber conquistados, principalmente os gregos e os egípcios.

Fundaram-se academias e centros de estudos, nos séculos VIII e IX, tendo os árabes se empenhado na tarefa de traduzir as obras gregas em filosofia, astronomia, matemática, medicina , religião, alquimia.

Os cristãos na Síria lideraram este movimento sendo também resposáveis pela disseminação dos conhecimentos alquímicos dos gregos e egípcios de Alexandria.

Um livro de alquimia mística com forte vinculação egípcia, o Livro de Crates (Democritos) , é conhecido deste período, e relacionado com idéias Herméticas (Hermes Trismegistos).

Tais idéias místicas foram também consideradas no século seguinte, X, pelo alquimista Muhamad ibn Umail, com seu livro Águas prateadas e terra brilhante, que se tornou muito influente.

Em Harran, uma cidade que era um centro eclético de estudos filosóficos, havia já muito tempo, com mistura de idéias sírias, persas e gregas, e onde se cultivava a alquimia, que tinha se tornado muito popular, o trabalho e o comércio com metais e outras substâncias era intenso.

É natural que as idéias de transmutação de metais e outros conceitos da alquimia grega e egípcia tivessem sido adotados e enriquecidos pelos árabes neste período.

O alquimista muçulmano mais famoso é Jabir ibn Hayyan (721?-803), considerado o pai da alquimia árabe.

Após ter seu pai decapitado, por participar numa tentativa de derrubada do Califa, foi para a Arabia onde uniu-se a uma seita Xiita chamada Ismailiia.

Esta seita cultivava doutrinas místicas, numerologia Pitagórica e adotava uma cosmologia que preconizava uma relação entre o macrocosmo e o microcosmo.

Também patrocinava a publicacão de trabalhos em alquimia.

Há mais de 2.000 trabalhos atribuidos a Jabir num período que se estende até o século XIV.

Isto indica que, na realidade, outros autores da Ismailiia assinavam os manuscritos, para garantir circulação, com o nome de Jabir, que na Europa ficou conhecido, séculos depois, como Geber.

Por este motivo as obras de Jabir são tambem conhecidas como a Coletânea de Jabir.

A filosofia natural de Jabir estava relacionada com as doutrinas alquímicas de Alexandria e a filosofia de Aristoteles.

Entretanto, embora adotando o conceito dos quatro elementos- fogo, terra, água e ar- e suas qualidades- calor, frio, umidade, e secura- achava que duas delas se combinavam constituindo as qualidades " exteriores" dos metais enquanto as restantes eram "interiores" e inatas.

Supunha que metais eram constituidos de mercúrio combinado com enxôfre e que diferiam uns dos outros pela diferença de suas qualidades.

Acreditava que se a proporção das qualidades fôsse conhecida em determinado metal, e se estas fossem separadas do mesmo, haveria a possibilidade de combiná-las em novas proporções e obter metal diferente.

Desta maneira seria possível transformar metais em ouro.

Na parte operacional a distilação destrutiva procurava isolar estas naturezas primitivas dos elementos alquímicos.

As substâncias eram então destiladas repetidamente, frequentemente centenas de vezes, na esperança de isolar as qualidades básicas.

Supunha-se também que a adição de uma outra substância, que teria o poder de absorver uma das qualidades, facilitaria esta tarefa.

Um outro alquimista muçulmano de destaque, que se dedicou à medicina, é Abu Bakr Muhammad ibn Zakaryya al-Razi (866-925), conhecido como Rahzes em Latim, nascido na cidade de Ray ou Rhagae.

Escreveu 21 livros de alquimia mas sòmente alguns são conhecidos.

No Kitab Sirr al-Asrar (Livro do Segredo dos Segredos) Razi faz uma exposição minunciosa e classificatória dos equipamentos e das substâncias utilizadas até então na alquimia.

Classificava as substâncias como animal, vegetal e mineral.

As minerais podiam ser espíritos, pedras, corpos, vitríolos, boraxes e sais.

Os espíritos podiam ser de quatro variedades: dois voláteis e incombustíveis, o mercúrio e o sal amoníaco, e dois voláteis e combustíveis, o enxôfre e o ‘arsênico’ (realgar ou orpimento).

As pedras incluiam: galena, stibnita, hematita, pirita, malaquita, vidro, lapis lazuli e gesso.

Sua classificação dos vitriolos não é muito clara mas incluia neles o sulfato ferroso e o alumen.

Os boraxes incluiam o natrão e os sais incluiam o sal comum, a cal hidratada e os carbonatos de sódio e potássio.

No seu livro Razi menciona outros materiais de uso comum: cinábrio, chumbo branco e vermelho, litargírio, óxido de ferro, óxido de cobre, vinagre de vinho.

Os equipamentos usados no laboratório incluiam frascos, caçarolas, cristalizadores de vidro, copos, jarros com tampa, espátulas, pinças, moinho de pedra para trituração e cadinhos simples e duplos para a purificação de metais.

Fornos de vários tipos, entre os quais o athanor, ou al-tannur, um fôrno feito de tijolos, no fundo do qual se colocava um recipiente com cinzas envolvendo o material a ser tratado, eram frequentemente usados.

Para aquecimento usavam velas, chamas de nafta, carvão, e outros materiais combustíveis.

As chamas eram sopradas com foles de couro mas as chaminés não eram ainda utilizadas.

Os sistemas de destilação usados neste período eram praticamente iguais aos dos alquimistas de Alexandria.

O alambique, ou retorta, era mergulhado em cinzas ou em água sob ação do aquecimento.

Razi também descreve, no seu livro, receitas para a preparação de muitas substâncias, entre as quais polisulfeto de calcio, a partir de enxôfre e cal virgem, e álcalis cáusticos a partir de carbonato de sódio (al-Qili) , cal e sal amoníaco.

O al-Qili era obtido por lixiviação de cinzas de plantas.

A solução resultante podia dissolver vários materiais incluindo a mica.

Os textos de Jabir e al-Razi inclinam-se mais para uma apresentação da alquimia prática, experimental, deixando de lado a parte mística e filosófica típica de Alexandria.

Assim, embora admitissem a transmutação de metais e a busca de elixires, os principais alquimistas desta época concentraram-se mais nos aspectos práticos da arte no laboratório.

Esta atitude influenciou não só os alquimistas muçulmanos posteriores como também, séculos mais tarde, os alquimistas europeus.

Um grande filósofo-cientista surgiu na Pérsia no século X, Abu ‘Ali al-Husayn ibn ´Abd Allah ibn Sina (980-1037) ou Avicena , seu nome no ocidente.

Avicena, um insaciável estudioso, dedicou-se à medicina e à filosofia tendo sido considerado, pelo seu vasto conhecimento, o principal sábio da Pérsia.

É reconhecido no ocidente como príncipe da medicina.

Não era filiado à seita Ismailiia tendo desenvolvido seus conhecimentos por conta propria.

Possivelmente esta ocurrência tenha-lhe proporcionado uma visão mais racionalista da ciência.

Escritor prolífico deixou mais de 200 tratados sôbre quase todos os assumtos de seu tempo.

Era um médico extraordinário e um experimentador lúcido.

Embora aceitasse a teoria aristotélica dos elementos Avicena rejeitava a transmutação de metais.

Reconhecia que o que os alquimistas conseguiam na verdade era fazer imitações colorindo os metais vulgares de branco (prata), amarelo (ouro) e côr de cobre.

Acreditava que estas qualidades eram impingidas aos metais e que os processos usados, entre os quais a fusão, por exemplo, não podiam afetar a proporção de seus elementos constituintes.

Considerava que a proporção de tais elementos era uma característica de cada metal.

Assim como suas obras as idéias alquímicas de Avicena tiveram grande influência nos séculos posteriores.

No final do século X aparece um outro livro famoso, Rutbat al-Hakim ou Avanço do Sábio, de autoria de Maslama al-Majriti.

Era um famoso astrônomo mourísco da Espanha, país que tinha sido subjugado pelos árabes no século VIII.

Este livro expõe essencialmente as mesmas idéias dos alquimistas muçulmanos, como Jabir, mas aborda detalhes experimentais que indicavam uma preocupação com aspectos quantitativos das transformações observadas.

A alquimia no mundo muçulmano atingiu seu apogeu no século X.

Como reflexo da situação política inconstante não sofreu avanços racionais na sua interpretação.

Apesar disto os árabes contribuiram substancialmente para a formulação da teoria da composição das substâncias (teoria enxôfre-mercúrio).

Cultivaram com intensidade os paradigmas da alquimia helenista já conhecidos de séculos anteriores.

A parte mística da alquimia intensificou-se, entretanto, embora nos séculos XI,XII e XIII surgissem comentaristas e divulgadores da arte, que não acrescentaram nada de importante.

Um dos grandes méritos dos alquimistas árabes foi a tradução das principais obras dos autores antigos para a sua língua e o enriquecimento das idéias de forma mais objetiva.

A divulgação destas obras pelo seu império permitiu, mais tarde, uma verdaderira revolução cultural na Europa.

Do ponto de vista da alquimia experimental aperfeiçoaram a prática da destilação orientando-a para a separação dos princípios básicos constituintes das substâncias.

Progrediram na classificação dos minerais e contribuiram para a descoberta dos álcalis.

Fizeram progressos no uso de elixires na medicina e na transformação de metais além do estudo de substâncias orgânicas.

 

 

Alquimia e Tecnologia Química no século XVI

 

Avanços científicos em astronomia, medicina, cartografia, navegação (a construção de bússolas e de navios com vela de desenho diferentes) , e de outros setores, conjugaram-se para tornar o século XVI um século de renovações.

Sob o impacto dos descobrimentos de novas terras, como a America e o Brasil, fatos decorrentes dos avanços em cartografia, navegação e construção de navios, as fronteiras conceituais e culturais da Europa se ampliaram.

Na Astronomia temos a nova teoria de Copérnico (1473-1543) que superou o sistema Ptolomaico.

Em medicina, Versalio (1514-1564), com novos avanços em anatomia.

Paracelso (1493-1541) revelou o valor da Alquimia experimental na preparação de remédios e elixires.

A prática da tecnologia química,com suas aplicações às necessidades da vida da sociedade, intensificou-se consideravelmente.

As teorias Aristotélicas fundamentais para a Alquimia, no entanto, continuavam sendo aceitas e, neste século, nada de novo surgiu na parte conceitual.

A ênfase foi na parte de equipamentos de laboratório, métodos preparativos e descoberta de novos reagentes.

A disponibilidade de livros impressos permitiu grande divulgação dos textos alquímicos clássicos.

Uma consequência foi o engajamento de um número maior de estudiosos muitos dos quais passaram a cultivar a parte mística e alegórica da arte alquímica.

Livros de natureza prática, como o Liber de arte distillandi de simplicibus ou Livreto da arte de destilação de Hieronymus Brunschwygk, publicado em 1500 e outro, o Tratado de Destilação, em edição melhorada de 1512, passaram a ter grande interesse.

Estas e muitas outras publicações, sôbre o mesmo tema, indicam uma preocupação especial com as técnicas de destilação.

Esta tinha como finalidade "extrair" a essência dos objetos principalmente a das plantas para uso na preparação de remédios e elixires.

A prática da Alquimia, com seus processos de laboratório, atraiu um grande número de médicos, metalurgistas e farmacêuticos.

Passou a influenciar a medicina, o estudo dos minerais e dos metais e nas artes de guerras levou ao desenvolvimento da pirotecnia.

Passou também a influenciar outros setores do conhecimento principalmente aqueles de utilidade prática.

Os livros anônimos Nützliches Bergbüchlein ou Manual Utilitário de Minas e o Probierbüchlein ou Manual de Testes, sôbre processos metalurgicos e análise de minerais, respectivamente, são dois textos que se tornaram populares a partir de 1510 e tiveram várias edições melhoradas publicadas.

No Manual de Testes os testes descritos são quantitativos com o uso de balança e pêsos.

Outros livros com aplicações em metalurgia, deste século, são o De la pirotechnia ou Sôbre a pirotecnia, de Vannuccio Biringuccio, de 1540, o famoso De re metallica ou Sôbre os metais, de Agricola (ou Georg Bauer), de 1556, e um Tratado sôbre minerais e sua avaliação, de Lazarus Ercker, de 1574.

Nestes livros há descrições detalhadas, de processos químicos que utilizam vários sais e ácidos, principalmente no livro de Agricola, que é minuncioso neste particular.

Nestes livros práticos de metalurgia aparecem descrições de metais incluindo, pela primeira vez, alguns como o bismuto, o cobalto e o zinco.

Um aspecto extremamente importante da tecnologia química, neste século, foi a busca de expressão quantitativa de seus processos.

Procurava-se dar uma descrição clara dos procedimentos usados de tal forma que o leitor pudesse usá-los com sucesso.

Em 1575 é publicada a primeira tradução completa da Pneumatica, de Hero, helenista que estudou os gases e que, como o filósofo Demócrito, procurava explicar a constituição do universo por meio de partículas.

Uma maneira de considerar a Alquimia de forma diferente e inovadora surgiu com Paracelso (Philippus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, 1493-1541), um médico e alquimista que exerceu grande influência nos séculos seguintes.

Paracelso, de grande espírito crítico e combativo, rejeitava as idéias clássicas em medicina e estabeleceu o uso da quimica e seus procedimentos na preparação de remédios e princípios ativos.

Apesar de considerar os conceitos herméticos da alquimia não acreditava na transmutação dos metais vulgares em ouro.

O uso principal da alquimia, no entender de Paracelso, era na preparação de remédios o que o levou a utilizar metais e obter uma variedade enorme de sais solúveis que ele chamava de "óleo".

Procurou fazer uma sistematização das reações químicas utilizadas e seu uso médicinal no tratamento de doenças, estabelecendo, desta forma, a Iatroquímica.

Uma contribuição de Paracelso, na parte conceitual, foi considerar que os metais possuiam três componentes.

Haveria não só enxôfre e mercúrio, mas também sal, constituindo a chamada tria prima ou essência abstrata deles.

Considerava, também, que a alquimia abrangia uma área de operação mais ampla do que aquela praticada até então, pela inclusão de qualquer tipo de transformação que fosse observada.

Suas idéias, embora combatidas intensamente, principalmente pela classe médica, no transcorrer do tempo, foram adotadas pelos alquimistas, médicos e farmaceuticos.

Um monge beneditino, Basil Valentino, também se destacou, após Paracelso, utilizando-se de suas idéias e tornando a descrição dos processos experimentais alquímicos mais detalhadas e fiéis.

Seu trabalho principal, a Carruagem Triunfal do Antimônio, foi publicado pelo editor Thölde no começo do século seguinte (1604).

Em 1584 Giambattista de la Porta (1537-1615) publica o seu Magiae naturalis, um tratado com 20 volumes que faz uma coletânea da ciência até sua época.

Na parte alquimica descreve a transmutação dos metais e a transformação de substâncias de um ponto de vista mais amplo, não místico.

Na de tecnologia quimica, que é extensa, ensina como colorir vidro com compostos metálicos, produzir gemas artificiais, fazer extração de produtos naturais de plantas e a preparação de remédios, além de outros processos.

De la Porta, além da clareza da exposição, mostra uma preocupação com as proporções quantitativas dos reagentes e com a metodologia de preparação como prerequisitos para a obtenção de bons resultados.

O tratado de la Porta,traduzido do latim para as linguas européias, era muito popular e permaneceu circulando por mais de 100 anos.

No final deste século, 1597, Livabius (Andreas Libau) publica o livro Alchemia, com o estudo abrangente e sistematizado do conhecimento e equipamentos usados até então na alquimia, na iatroquímica, na metalurgia e outros campos afins.

A indicação e a descrição dos utensílios de laboratório e seu uso fizeram seu livro ser adotado como texto padrão de química durante muitos anos.

Na parte conceitual considerava que a alquimia era tão abrangente como supuzera Paracelso, e a dividia em dois ramos, um a Chymia, que estuda a combinação das substâncias e o outro a Encheria, cujo objeto era a metodologia usada.

O século XVI foi rico na difusão da prática alquímica por outros ramos do conhecimento como a medicina, a metalurgia e a mineração.

O aparecimento da Iatroquímica e a influência de Paracelso criaram condições para a consolidação da química na medicina o que suscitou, nos séculos seguintes, o aparecimento de uma nova atividade independente, a farmácia.

A prática da destilação e o lugar de destaque que atingiu nas operações alquímicas - que visavam extrair a "essencia" por separação de misturas de corpos, como se fazia na iatroquímica -foi um prenúncio de idéias que frutificariam séculos mais tarde quando a alquimia deu lugar à moderna química.

Outro aspecto importante foi a natureza dos laboratórios e os equipamentos que eram usados nas operações básicas.

Essencialmente muitos destes equipamentos ainda fazem parte do laboratório de química moderno.

 

Alquimia no século XVII

 

A alquimia e a iatroquímica atingiram nível popular com as preleções públicas de Jean Béguin, na França, onde publicou seu livro Tyrocinium Chymicum, em 1610, destinado a principiantes.

Em 1615, numa edição ampliada, descreve a reação entre o sulfeto de antimônio e o sulfato de mercúrio.

Outro texto químico publicado na França é o Cours de Chymie de Nicholas Lemery que também era um grande divulgador profissinal da ciência que se delineava.

A alquimia, no que pese ao seu conceito público, passou a ser mais associada à fraudes enquanto que a Chymica estava relacionado com preparação de elixires, remédios, extratos e sais usados em medicina.

Em suma, a iatroquímica passou a ter um status de atividade independente.

No começo dêste século a tendência de encarar a alquimia pelo lado prático teve continuidade.

Livabius

publica em 1611 o livro Syntagma onde descreve a preparação do ácido clorídrico (spiritus salis), do tetracloreto de estanho (spiritus fumans Libavii), do ácido sulfúrico e da água régia.

A tecnologia química já enseja a produção industrial de produtos iatroquímicos.

Johann Rudolph Glauber (1604-1670), um químico auto-didata muito viajado, com interesse em metalurgia, iatroquímica, e química em geral, dedica-se à parte de equipamentos e processos industriais.

Na Holanda, em Amsterdam, publica em 1648 o livro Furni Novi Philosophici ou Novos fornos filosóficos com a descrição de sistemas e processos usados em fornos.

Um outro texto, de 1654, o Pharmacopeia Spagyrica, publicado na Alemanha, é dedicado à produção de produtos iatroquímicos.

O seu interêsse por sais leva-o a experimentar um número grande de reações envolvendo ácidos minerais, como o sulfúrico e o clorídrico, metais e óxidos.

Chega a conclusão de que os sais possuem uma parte derivada dos ácido e outra das terras do metal (isto é, óxido).

Com sais neutros faz reações de dupla decomposição produzindo novos sais.

(Não faz muito tempo, nas farmácias brasileiras, podia-se comprar o sal de Glauber, um sulfato de sódio, usado em medicina popular e atualmente usado, pelas suas propriedades, nos processos modernos de conservação de energia térmica.)

Suas observações sôbre a compatibilidade de substâncias reagentes com os diversos metais ( uma substância "ama" ou odeia" um dado metal ) são precursoras do conceito de afinidade química desenvolvido posteriormente.

Glauber também preparou muitos compostos orgânicos, como o benzeno, mas não tinha conhecimentos para desbravar esta terra incognita de compostos de carbono.

Os primeiros farmaceuticos se estabelecem reforçando a prática iatroquímica, que se torna muito popular.

Os alquimistas tradicionais sofrem agora a concorrência dos médicos e farmaceuticos cuja visão era de ordem mais utilitária e concreta.

Assim o laboratório passou a ter importância vital e neste século surgem as primeiras idéias de grandes laboratórios integrados para o trabalho alquímico.

Um destes laboratórios, imaginado por Livabius, é construido no final do século.

Em 1617, Angelo Sala (1576-1637), um médico-químico, descreve pela primeira vez a preparação do "vitríolo de cobre", isto é, do CuSO4 .5H 2O, a partir de quantidades pesadas de acido sulfúrico, cobre metálico e água e depois, por decomposição do produto, recupera os ingredientes básicos.

Jan Baptist Van Helmont (1577-1644), um médico belga seguidor de Paracelso, além da parte prática, onde usava sistemáticamente a balança, preocupava-se com a parte mística e filosófica da alquimia.

Não aceitava a teoria aristotélica dos quatro elementos mas supunha que a água era fundamental para explicar a natureza.

Estudou quantitativamente muitas transformações que envolviam a água.

Por exemplo, acompanhou o crescimento de uma árvore durante longo período, 5 anos, pesando a terra e, no final, a árvore, chegando a conclusão que a água era um constituinte da árvore porque o pêso da terra continuou o mesmo.

Fez transformações quantitativas com sistemas inorgânicos envolvendo água e soluções com o intuito de confirmar suas suposições.

Entretanto, não chegou a formular um princípio geral de constância da massa nas transformações químicas, sendo isto feito sòmente nos séculos seguintes.

A prática de pesar os reagentes, no entanto, se espalhou e passou a integrar o procedimento alquímico experimental.

Também estudou muito as transformações que produzem gases como a carbonização de matéria orgânica e a fermentação, a queima do enxôfre, a ação de ácidos sôbre metais e carbonatos e outras similares.

Nestas transformações produzia dióxido de carbono, dióxido de enxôfre, óxidos de nitrogênio, hidrogênio, metano ou misturas destes, respectivamente.

Van Helmont foi o responsável pelo nome gas para estas substâncias.

Achava que pertenciam a uma classe que denominava de spiritus sylvestris ou espírito indomável, difícil de serem controladas, pois muitas vezes destruiam seus equipamentos.

Acreditava que não podiam ser contidas em um recipiente, não podiam ser reduzidas (condensadas) a uma fase visível, como o vapor de água, e que eram constituintes naturais dos corpos.

Fazia distinção entre ar, vapor e os gases que estudava.

Considerava que as diferenças que apresentavam eram devido ao arranjo diferente do enxôfre, do mercúrio e do sal, os componentes básicos dos corpos, na alquimia desta época.

Pelos seus estudos dos gases van Helmont é considerado o fundador da Química pneumática ou estudo dos gases.

A partir de van Helmont os alquímistas passaram a fazer experiências com gases nos seus estudos.

Esta prática foi precursora de grandes avanços obtidos por outros estudiosos no século seguinte.

Van Helmont destacou-se, também, no estudo da iatroquímica, seguindo as idéias de Paracelso.

Este achava que o comportamento do corpo humano é devido à presença de um princípio inteligente, denominado Archeus, que se manifestava, por exemplo, na digestão.

Van Helmont generalizou este conceito estendendo-o para qualquer atividade do ser vivo e supôs que as reações nos seres vivos eram devido a ação de "fermentos".

Esta idéia, que permaneceu até o século XIX, é uma precursora longínqua das enzimas modernas.

Dedicou-se, também, ao estudo prático dos fluidos do corpo humano.

Seus conceitos teóricos, embora carregados de manifestações místicas, influiram nas idéias que mais tarde levaram ao estabelecimento da Bioquímica.

A iatroquímica, neste século, floresceu seguindo as linhas gerais de Paracelso, mas com a extensão de alguns de seus conceitos.

Na prática a iatroquímica passou a ser uma área experimental de estudos cultivada pelos farmaceuticos que se dedicavam a extrair de plantas e produtos animais os elixires ou princípios ativos que os médicos usavam.

A destilação, técnica utilizada, permitia separar os produtos iniciais em seus "componentes", normalmente um resíduo sólido ou líquido viscoso, gases inflamaveis ou vapores condensáveis.

A teoria dos tres elementos de Paracelso, mercúrio, enxôfre e sal, nem sempre representava adequadamente os fatos observados pelos farmaceuticos.

Foram eles levados a estabelecer mais dois elementos adicionais, flegma e terra, considerando-os passivos em contraposição aos tres primeiros que eram considerados ativos.

Desta forma os iatroquimicos introduziram o conceito de cinco elementos que embora lhes racionalizasse os resultados experimentais não logrou consolidar-se na alquimia em geral.

Esta tentativa acompanhava a tendência dos alquimistas deste século em ter suas próprias teorias interpretativas dos fatos experimentais.

Como tais eram conceitualmente limitadas e efêmeras embora se afastassem das idéias clássicas alquímicas existentes desde a época de Alexandria.

As idéias atomísticas dos gregos persistiam e começaram gradativamente a ser consideradas como alternativa de explicação dos fenômenos observados.

Assim, muitas observações indicavam que havia nas transformações químicas uma parte que permanecia inalterada, não sujeita à mudanças.

Na deposição do cobre sôbre ferro, que obtinham usando uma solução de sulfato de cobre, o cobre depositado seria o mesmo existente em solução sob forma de partículas.

Muitos estudiosos, que não aceitavam totalmente as idéias Aristotélicas, usavam estas idéias alternativas, raciocinando em termos atomísticos ou procurando racionalizar suas observações com teorias semelhantes.

Daniel Sennert (1572-1637), por exemplo, dava às partículas o nome de minima e explicava as condensações, distilações e outras transformações por meio delas.

Jungius (1587-1637) ou Joaquim Junge, da mesma forma que muitos iatroquímicos, considerava muitos fenômenos como transformações envolvendo troca de átomos.

As idéias atomísticas eram também francamente utilizadas pelos físicos como Galileo (Galileu Galilei) (1564-1642), que estudava o movimento dos corpos.

Tambem por Francis Bacon (1561-1626), que atribuía ao movimento das partículas, que formavam os corpos, a existência do calor ou aquecimento dos mesmos.

Estas idéias atomísticas passaram cada vez mais a ser utilizadas na explicação dos fenômenos.

Desta forma encontraram no estudo dos gases um campo fecundo de experimentação e de confirmações.

Uma teoria mecânica para explicar a natureza começou a ser formulada.

Pierre Cassendi

(1596-1650), um grande divulgador que conhecia bem as obras dos gregos atomístas, em particular as de Epicuro, contribuiu muito para divulgar esta idéia.

A filosofia de Descartes (Renée Descartes) ( ), de que a verdade só poderia ser obtida por um processo detalhado de análise e que não poderia ser considerada a não ser que fôsse provada, iniciou um processo novo de estudar a natureza.

A influência desta tendência nos estudos da química foi profunda e começou a tomar forma, nas universidades européias, em meados do século.

As idéias alquímicas de misticismo e de forças ocultas, como responsáveis pelos fenômenos e transformações, começaram a ser superadas pelo modêlo cartesiano, baseado na observação, na experiência e na descrição matemática dos fenômenos observados.

Em 1643 Evangelista Torricelli (1608-1647) inventou o barômetro e provou experimentalmente a existência do vácuo.

Otto von Guericke(1602-1686), prefeito da cidade de Magdeburgo, Alemanha, inventou a bomba de ar ou de vácuo que logo passou a ser usada por Robert Boyle , que usava um modêlo construido por Robert Hooke, e John Mayow, na universidade de Oxford, na Inglaterra.

Hooke,

que era asssitente de Boyle, mais tarde tornou-se um grande cientista da época destacando-se no estudo da Física e competindo com Isaac Newton em muitas descobertas.

Robert Boyle ( 1627-1691 ) passou a usar bombas de ar nos seus experimentos e em 1660 publicou o livro New Experiments Physico-mechanical, Touching the Spring of the Air and Its Effects ou Novas Experiências Físico-mecânicas sôbre a elasticidade do ar e seus efeitos.

Ao longo dos anos descobriu alguns fenômenos físicos, como a ausência de propagação do som no vácuo, e no estudo do ar o fato de que o volume de um gas é inversamente proporcional à pressão aplicada quando a temperatura é mantida constante.

Esta lei, mas tarde redescoberta na França por Mariotte, é conhecida como "lei de Boyle-Mariotte" para os gases.

Na química estudou o aumento do pêso dos metais na calcinação e a necessidade de ar na combustão e na sustentação da vida.

Empreendeu tambem estudos sistemáticos de reações de ácidos e bases e o uso de extrato de plantas como sinalisadores de transformações químicas pela alteração da côr (indicadores).

Dedicou-se, também, ao estudo do fósforo, uma substância já conhecida,e sua preparação e propriedades.

Boyle era um grande experimentador que procurava realizar seus estudos de forma sistemática e rigorosa.

Dedicou-se ao estudo da combustão cuja ocurrência considerava-se nesta época estar ligada à presença no ar de um espírito vital encontrado no natrão, que era usado na preparação de pólvora e responsável por sua ação.

Em 1661 escreveu um livro de natureza didádica, com personagens que dialogavam, chamado

The Sceptical Chymist ou O Químico não Crédulo.

Nele Boyle ataca a teoria dos quatro elementos de Aristóteles, e a dos tres elementos de Paracelso, levando-as à rejeição por um interlocutor (êle próprio) , um químico que não se convenceu na discussão havida.

Neste livro deixa entrever uma opinião não favorável à transmutação dos elementos, como por exemplo, a do mercúrio em ouro.

Além disto tinha um conceito de elementos como sendo substâncias puras e simples que entravam na composição dos corpos, em contraposição à idéia de Aristóteles de que todos corpos são constituidos dos mesmos quatro elementos misturados em proporções diversas.

Apesar de sua concepção correta Boyle nunca chegou a formular uma teoria sôbre o assunto.

Sua concepção corpuscular da matéria aliada à uma interpretação puramente mecânica das transformações químicas, em que o movimento das partes era considerado fundamental, representou uma nova maneira de considerar os fenômenos químicos.

Como consequência o impacto de suas idéias nos químicos de sua época e nos séculos posteriores foi considerável.

Robert Hooke (1635-1703), assistente de Boyle, compartilhava de suas idéias e considerava que os gases eram constituidos de uma mistura de partículas diferentes, entre as quais um tipo responsável pela combustão e outro que não se alterava com as reações químicas e responsável pela elasticidade observada.

Hooke era um cientista polivalente: inventor prolífico, era físico, astrônomo, químico, geômetra, arquiteto, biólogo, tendo atuado criativamente em todos estes campos e também na música.

Seus conceitos estão expressos no seu livro Micrographia, publicado em 1665, onde indica que um componente do ar seria o responsável pela combustão.

Esta também era a idéia de John Mayow (1641-1679), médico e cientista participante do grupo de Oxford, que aperfeiçoou as experiências pneumáticas de Boyle, mostrando experimentalmente que só parte do ar, que tradicionalmente era considerado uma substância única, tomava parte na combustão ou na respiração o que indicava possuir mais de um componente.

Mayow considerava a parte envolvida na combustão como partículas que seriam responsáveis pelo aumento de pêso do metal e chamou-as de nitro-aerial.

Posteriormente passou a atribuir muitos outros fenômenos - não ligados à combustão - à presenca de partículas de nitro-aerial.

Outro cientista de destaque cujas atividades na química foram reveladas recentemente é Isaac Newton (1642-1727), matemático e físico, fundador da Mecânica, inovador da Optica, inventor do cálculo diferencial e descobridor da ação gravitacional entre os corpos no universo.

É considerado o fundador da Física como ciência.

Newton passou grande parte de seu tempo fazendo experiências alquímicas buscando a transmutação dos elementos.

Era muito versado na construção de fornos e nas artes de laboratório e conhecia as obras alquímicas clássicas.

Newton concordava com as idéias de Boyle e interpretava as reações químicas em termos de atração entre as partículas dos reagentes, que eram aceleradas, e se chocavam produzindo calor, turbulência , vaporização, etc..

Uma idéia do conhecimento experimental que Newton tinha da química pode ser obtida na parte referente à perguntas (Pergunta número 30) da 2a. edição de seu livro Optics publicado em 1717.

Neste período do século XVII a química, a física e a astronomia passaram a ser ciências independentes cultivadas por estudiosos que fundaram sociedades científicas tanto na Inglaterra como no continente europeu.

Em 1662 a Royal Society é fundada em Londres por um grupo de cientistas entre os quais Boyle, Hooke, Newton e outros de renome.

As reuniões para apresentação de resultados novos e os debates eram semanais e nelas os cientistas tinham a ocasião de apresentar suas idéias a seus pares e difundir o conhecimento.

Os debates científicos e as diferenças de opinião entre Hooke e Newton ficaram famosos concorrendo para gerar um clima de disputa da prioridade de descobertas e acusações mútuas de apropriação de resultados.

É certo que tal disputa retardou a publicação do livro Optics, de autoria de Newton, por mais de uma década.

Na França, em 1666, é fundada a Académie des Sciences, em Paris.

Estas sociedades e academias, que lembram as famosas academias gregas, estabeleceram um padrão de debate científico que é seguido hoje mundialmente.

Também publicavam revistas e jornais com as novas descobertas e discussões científicas de seus membros.

As idéias atomísticas passaram a dominar o cenário científico e levaram à interpretação, embora errôneas, de muitos fenômenos observados.

Um exemplo é a do aumento do pêso de um metal quando aquecido em tubo fechado, atribuído por Boyle à ação de partículas de fogo.

A explicação correta (oxidação) só surgiu mais tarde, no final do século XVIII, com Lavoisier, na sua teoria da combustão.

As idéias místicas foram progressivamente deixadas de lado e abandonadas em favor de uma teoria puramente mecânica.

O desenvolvimento da física e em particular o da mecânica de Newton muito contribui para esta mudança de perspectiva no estudo das transformações químicas.

Apesar desta influência, no século XVII, nenhuma teoria química de natureza fundamental foi formulada pelos cientistas que perseguiam o novo paradigma do atomicismo.

Muitos deles, principalmente os do continente europeu, fundamentalmente eram farmaceuticos que se contentavam com teorias restritas aos seus interêsses.

 

 

Química do século XVIII

 

A partir da publicação do Químico não Crédulo, de Boyle, o interêsse da comunidade que se dedicava aos estudos alquímicos de cunho místico começou a diminuir ficando restrito àqueles ligados aos cultos de sociedades secretas e aos tradicionalistas.

A química, finalmente, expôs-se ao debate sadio, nas universidades, e à comunhão com outras ciências afins, sendo seus conceitos e teorias apresentados e debatidos nas sociedades científicas que haviam sido criadas e nas academias de ciências.

As sociedades científicas publicavam e registravam os debates por meio de jornais, revistas e anais e mantinham reuniões semanais entre seus membros.

Esta prática permanece até hoje em dia nas sociedades científicas modernas.

Embora o século anterior tenha sido caracterizado por uma postura mais científica relativa aos fenômenos químicos, com intensificação das idéias atomísticas e mecanicistas, sòmente no século XVIII são formuladas teorias gerais para explicar o fenômeno da combustão e o da afinidade química.

Apesar da aceitação generalizada destas idéias os conceitos relativos às causas da combustão e das reações químicas eram muito nebulosos.

Os químicos ainda não tinham abandonado de todo as antigas idéias dos alquimistas que, refletindo os conceitos aristotélicos, consideravam as substâncias como uma mistura de elementos, entre os quais o fogo associado à combustão.

Os iatroquímicos ainda gozavam de grande influência, principalmente no continente europeu e, particularmente, na Alemanha.

As idéias de Paracelso relativas aos elementos foram adaptadas por Johann Joachim Becher (1635-1682) para explicar a combustão das substâncias, inclusive as orgânicas, nas quais tinha muito interêsse.

Considerava como elementos a água, a terra e o ar.

Supunha que as substâncias possuiam três variedades de terra chamando-as de terra vitrificável (correspondia ao sal de Paracelso), terra mercurial (mercúrio, de Paracelso) e terra combustível ou gordurosa (terra pinguis) (enxofre de Paracelso).

Quando uma substância era queimada a terra pinguis era liberada deixando um resíduo de cinzas.

Desta forma Becher explicava a combustão de matéria orgânica, madeira, por exemplo.

Seu discípulo, o médico Georg Ernst Stahl (1660-1734), influenciado por idéias da metalurgia estendeu os conceitos de Becher aplicando-os aos sistemas inorgânicos e particularmente aos metais.

Deu o nome de phlogiston (queimado, em grego) à substância que era liberada na combustão deixando um resíduo.

Seu conceito de combustão era amplo: a corrosão de um metal no ar era considerada uma espécie de combustão em que havia formação de um resíduo de cal e desprendimento do flogisto.

Considerava, errôneamente, que o ar não tomava parte na combustão, servindo sòmente para receber o flogisto que se desprendia da substância.

A teoria do flogisto teve considerável influência entre os químicos tendo se tornado, até o fim do século XVIII, uma das principais teorias da química.

Explicações engenhosas mostravam que o cal podia absorver flogisto do ar, ou das plantas, ou do carvão, recompondo a substância original.

Como o carvão vegetal reduz o cal (óxido) ao metal o carvão possuiria muito flogístico.

Entretanto, medidas do pêso, das substâncias metálicas antes e depois da combustão, mostravam que o pêso aumentava com a saida do flogisto.

Com as substâncias orgânicas ocorria o contrário: o pêso diminuia.

Tais fatos contraditórios não eram levados em conta por Stahl que considerava o flogisto como um integrante não material encontrado nos corpos.

De fato, a variação de pêso das substâncias presentes numa reação química não era relevante para os químicos desta época, embora tal fenômeno já tivesse sido observado por van Helmont, Jean Rey e Robert Mayow.

Alguns químicos acreditavam que a perda de pêso na combustão era devido ao fogo (um dos quatro elementos de Aristóteles), de natureza leve e sempre presente nos corpos ; outros, que o aumento se devia à absorção de parte da chama ou do calor.

Na realidade havia tantas interpretações quanto químicos mas a teoria do flogisto com suas inconsistências tornou-se popular porque (aparentemente) encontrava confirmação na experiência.

A lei da atração universal, descoberta por Newton, e seu sucesso na explicação do movimento dos corpos celestes, levou os químicos a procurar explicar o "amor" ou o "ódio" observado entre as substâncias nas transformações químicas.

Assim foram levados a supor ação atrativa semelhante entre as partículas constituintes da matéria.

Afim de racionalizar estes conceitos em termos concretos começou-se a estudar sistemáticamente a afinidade das substâncias umas pelas outras.

Em 1718 Etienne-François Geoffroy (1672-1731) publica uma tabela com observações experimentais da afinidade química de várias substâncias e chega à conclusão que se duas substâncias estão unidas por afinidade a presença de uma terceira que tenha afinidade maior por uma delas provocará a separação e o isolamento da outra.

A sua tabela contém dezesseis colunas contendo os símbolos que eram usados para representar as substâncias e linhas horizontais onde estão classificadas em ordem decrescente as afinidades observadas com várias substâncias.

Assim, na coluna do mercúrio, aparecem em ordem decrescente de afinidade o ouro, a prata, o chumbo, o cobre, o zinco e o antimônio.

Esta tabela foi ampliada, em 1775, para cinquenta e nove substâncias, por Torbern Bergman (1735-1784), um químico sueco, havendo uma para substâncias que reagiam em solução e outra para as que reagiam por fusão.

Embora puramente qualitativos os resultados desta sistematização forneceram um caminho para determinações quantitativas que se tornavam frequentes nos estudos químicos ao longo deste século.

Embora já se tivesse procurado determinar a quantidade de base necessária para neutralizar ácidos diversos, sòmente em 1781, com Richard Kirwan (1733-1812), associou-se uma quantidade pesada de base à outra de ácido como medida da afinidade.

Esta tendência levou ao estabelecimento do conceito de equivalente químico no século seguinte.

A tendência de utilização da balança nas medidas quantitativas passou a vigorar à medida que novos compostos e novas reações químicas eram descobertas.

A análise das substâncias, tanto qualitativa quanto quantitativa, passou a ser comum.

O uso de soluções passou a ter grande importância (análise úmida) pela sua praticidade, à temperatura ambiente, comparada com o método tradicional que envolvia destilações e fusões à altas temperaturas (análise à seco).

Este último tornou-se muito importante na geologia, e nos estudos de minerais, sendo utilizado no campo para testar amostras.

Por exemplo, A.F. Cronstedt (1722-1765) utilizando um pequeno maçarico descobriu um minério poroso novo que se decompunha formando bolhas de líquido.

Por esta particularidade denominou-o de zeólita ou "pedra que ferve".

O aperfeiçoamento dos métodos de análise química, com procedimentos mais apurados e uso criterioso da balança, permitiu a descoberta de novas substâncias nos minerais que eram analizados.

As de natureza metálica, mais tarde reconhecidas como elementos, foram o cobalto (1735), a platina (1740), o zinco (1746), o niquel (1754), o bismuto (1757), o manganês (1774), o molibdênio (1781), o telúrio (1782), o tungstênio (1785) e o cromo (1798) ; as de natureza não metálica eram óxidos de metais como o titânio, estrôncio, zircônio e itrio.

A atividade dos químicos levou à muitas outras descobertas importantes: compostos orgânicos ácidos, ácido fluorídrico, álcoois, ácido cianídrico, etc..

No começo do século, um professor de medicina e química, de renome, Hermann Boerhaave (1668- 1738), autor de um livro muito influente, o Elementa Chymia, acreditava, como Boyle anteriormente, que em certas circunstâncias o ar tomava parte na combustão.

Considerava que o fogo era uma substância que tinha pêso.

Seria ele constituido de partículas muito pequenas que podiam penetrar nos materiais e alterar a força de atração entre suas partículas constituintes.

Esta absorção das partículas de fogo dependia da afinidade delas com as partículas do material.

Assim, na calcinação, o aumento de pêso que se observava seria devido ao fogo absorvido.

Boerhaave acreditava que, além do fogo, o calor também era um tipo de substância, opinião aceita por muitos de seus contemporâneos

 

 Estudo dos gases

 

Muito importante, no entanto, para o desenvolvimento de novas idéias e concepções, que suscitaram o surgimento da química como ciência exata, foi o estudo sistemático dos gases, sua produção e o conhecimento de suas propriedades.

Stephen Hales (1677-1761), um botânico, no começo do século, através do desenvolvimento da cuba pneumática de laboratório, passou a estudar os gases desprendidos de materiais quando aquecidos.

No seu sistema, amplamente empregado posteriormente, os gases eram aprisionados em um balão invertido cheio de água.

Embora experimentasse com muitos gases desprendidos das substâncias aquecidas Hales não chegou a caracterizar a natureza química dos mesmos.

A natureza mecânica dos gases, entretanto, era de conhecimento e aceitação amplas, embora alguns alquimistas influentes acreditasssem que alguns deles pudessem tomar parte em transformações químicas.

Coube a Joseph Black (1728-1799), um médico escocês, muitos anos depois (1756), mostrar conclusivamente a existência do gas sylvestre,(ou CO2), já conhecido anteriormente por Van Helmont, produzindo-o por aquecimento da magnesia alba (um carbonato de magnésio).

O resíduo da calcinação tratado com barrilha regenerava a magnesia alba.

A mesma coisa acontecia com terra calcárea aquecida cujo resíduo era a cal.

Na concepção de Black, o gas produzido ( que chamava de ar), era parte integrante da magnesia alba ou da cal, estando fixado, ou fixando-se nelas, pela ação da barrilha sôbre o resíduo do aquecimento.

Estes resultados experimentais convenceram os quimicos de que o ar podia tomar parte em reações químicas.

Henry Cavendish (1731-1810), contemporâneo de Black, dedicou-se ao estudo de outro gas, o ar inflamável (hidrogênio), que produzia reagindo ácidos com alguns metais.

Tal gas, já descrito 100 anos antes por Boyle, e outro chamado gas mefítico (nitrogênio), obtido do ar comum, foram estudados por Cavendish usando métodos quantitativos químicos e físicos.

Embora sem reconhecer o oxigênio como substância independente mostrou que o ar comum podia ser separado em dois componentes, um dos quais o gas mefítico, e um pequeno resíduo (mais tarde identificado como o neon).

Suas experiências com o ar levaram outros experimentadores, como Joseph Priestley (1733-1804), a experimentar a ação de centelhas eletricas sôbre misturas de ar inflamável e ar comum, e indicar a existência de água condensada nas paredes internas dos recipientes usados.

Entretanto, coube a Cavendish mostrar, em 1784, que a água não era um elemento, mas sim uma substância composta.

O estabelecimento da prioridade da descoberta foi uma tarefa árdua para a Royal Society, na disputa entre Priestley e Cavendish.

Joseph Priestley

, um dos mais fecundos pioneiros desta época, tendo começado amadorísticamente seus trabalhos de investigação aos 38 anos, foi o descobridor de muitos gases até então desconhecidos.

Usou uma engenhosa modificação da cuba pneumática, substituindo a água por mercúrio, e desta forma, impedindo que os gases aprisionados se dissolvessem na água.

Gases como o "ar nitroso" (óxido nítrico, hoje), podiam ser obtidos reagindo "espírito de nitro" (ácido nítrico) com metais.

O gás obtido (incolor) em contato com o ar, passava a ter côr castanho escura.

Observou que se usasse ar viciado ( após combustão ou respiração) a cor era mais clara.

Assim, foi levado a desenvolver um aparelho chamado "eudiômetro" que permitia testar a pureza do ar pela coloração que adquiria quando misturado com óxido nítrico.

Na realidade, Priestley estava lidando com o oxigênio do ar, gas que posterirmente descobriu.

Muitos gases foram descobertos por Priestley, tais como a amônia, o dióxido de enxofre, monóxido de carbono e outros.

Entre estes está o que denominou de "ar deflogisticado" (oxigênio).

Como a maioria dos cientistas da época Priestley acreditava na existência do flogisto, que usava para explicar suas observações.

A partir de 1674, começou a utilizar uma lente bem grande, concentrando os raios solares no seu foco, onde submetia as substâncias a intenso calor, recolhendo os gases produzidos.

Usando sais de mercúrio (conhecidos como precipitado vermelho ou mercúrio calcinado) obteve um gas, que testado com seu eudiômetro, mostrou-se melhor do que o ar para sustentar uma chama ou a respiração.

Priestley experimentou muito com este gas chegando a mostrar que as plantas, quando iluminadas, exalavam ar deflogisticado.

Estas observações deram origem aos estudos que mais tarde constituiram a fotosíntese.

Em 1790 publicou suas observações no livro Experiments and Observations on Different Kinds of Air.

O oxigênio, descoberto e caracterizado por Priestley, já tinha sido , anteriormente, descrito por Carl Wilhelm Scheele, que o descobriu independentemente.

 

Vicente Coelho Seabra e a sistematização do conhecimernto químico do século XVIII

 

Vicente Coelho Seabra (1764-1804), nascido no Brasil e professor em Coimbra, publica em 1788 a 1a. parte, e dois anos depois, a 2a. parte de um livro, Elementos de Chimica.

É um livro de orientação didática, onde apresenta a química de seu tempo, como praticada na Europa, sob forma abrangente e atualizada, contendo os últimos resultados do conhecimento da época.

Nele adota e apoia a teoria da combustão de Lavoisier antes deste publicar seu Traité Eléméntaire.

A primeira parte contém um esboço da história da química, discussão da química e seu objeto.

Discute, também, a afinidade química, os meios utilizados na química, princípios gerais dos corpos, o fogo, o flogisto, o ar, a água, a luz e o calor.

Há um capítulo sôbre as operações da química: torrefação, combustão, calcinação, etc., com descrição e comentário sôbre estes processos.

A segunda parte é mais extensa do que a primeira sendo dividida em dois tomos.

Sua abordagem lembra muito a terminologia usada em classificação na História Natural.

O assunto está dividido em Classe, Ordem, Gênero, Espécie e Variedade e trata dos Corpos Combustíveis (Classe I) e dos Incombustíveis (Classe II).

Há uma descrição detalhada e comentada de todos os conhecimentos químicos de sua época, relativos aos reinos mineral, vegetal e animal.

Também acompanha o livro um grande número de tabelas e tábuas que mostram uma completa sistematização do conhecimento químico no século XVIII.

Vicente Coelho Seabra, através de sua obra, mostra ter sido um personagem extremamente bem informado de todos os avanços científicos da época e nela mantém um espírito crítico independente.

O livro é oferecido para uso de um curso de Química mantido pela Sociedade Literária do Rio de Janeiro.

 

 Lavoisier e o começo da Química Moderna

 

As últimas décadas do século 18 foram palco de desenvolvimentos extraordinários e descobertas que propiciaram o surgimento da química moderna.

A teoria do flogisto, intensamente usada pelos químicos para explicar uma variedade grande de fenômenos, enfraqueceu-se consideravelmente por não apresentar um caracter universal.

Cada estudioso apresentava sua propria versão na explicação dos fenômenos observados fato que levava muitas vezes à explicações contraditorias ou estranhas.

A quantidade de fatos novos descobertos, novas reações e propriedades reconhecidas nas substâncias usadas, e o uso de métodos mais racionais, tanto qualitativos quanto quantitavamente, permitiram que o século 19 despontasse sob o efeito de uma revolução renovadora de idéias e conceitos.

Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794), com a descoberta experimental de que os fenômenos de combustão, amplamente estudados até então, estavam ligados à presença de um componente do ar levou os químicos ao abandono da teoria do flogisto e total revisão de conceitos seculares arraigados.

Lavoisier, era um aristocrata rico, que tinha vida pública muito intensa, de esmerada educação científica, e extremamente bem informado das descobertas e trabalhos europeus.

Utilizava em seus estudos um enfoque conceitual e experimental típico dos físicos, dando ênfase aos aspectos quantitativos das experiências.

O uso da balança foi fundamental para o sucesso das suas descobertas e a eclosão das novas idéias químicas.

Recomendava o uso da balança para determinar a massa dos reagentes e dos produtos obtidos, evitando-se perdas.

No seu Traité Élémentaire de Chimie (1789) recomenda o uso de cinco tipos diferentes de balanças e dá uma descrição completa dos equipamentos de um laboratório químico e seu uso.

Suas experiências eram planejadas para estudar os aspectos fundamentais dos fenômenos e fornecer respostas concretas às perguntas formuladas.

Em 1772 começou seus estudos de combustão e calcinação utilizando uma lente grande para concentrar raios solares nos materiais de interêsse.

Do mesmo modo que outros químicos da época mostrou que o diamante podia ser fundido, desta forma, no ar.

Passou a estudar os produtos de combustão do fósforo e do enxofre mostrando que ambos se combinavam com o ar produzindo compostos ácidos.

Passou a estudar metais, como o chumbo e o estanho e iniciou um projeto de repetir e variar todas as experiências de Black e de Priestley.

Mostrou que o aumento de pêso na combustão não era provocado pela absorção de fogo.

Esta idéia, defendida por químicos famosos como Boyle e outros, foi mostrada ser errônea.

Lavoisier mostrou quantitativamente que o aumento de pêso se dava devido à formação de um "cal" (óxido) com o ar.

Mostrou, também, que o "cal" aquecido com carvão vegetal liberava o metal.

Este era acompanhado de um gas idêntico ao "gas sylvestre " de van Helmont ou ao "gas fixado", (CO2), estudado por John Black.

Em 1775 passou a estudar o "precipitado vermelho" (óxido de mercúrio), já estudado por Priestley, mostrando por aquecimento, com sua lente, que ele se decompunha em mercúrio e um novo gas, contido no ar.

Mostrou que o ar continha dois componentes, um inerte, que denominou "azote" ( ou nitrogenio, mais tarde) e o outro, " ar respirável" (mais tarde chamado de oxigênio).

Muitas experiências levaram-no à conclusão que o "ar respirável" era responsável pela produçao de calor na respiração dos seres vivos.

Também era responsável pela formação do "gas fixado" de John Black na combustão do carvão vegetal no ar.

Lavoisier publicou suas observações nos anais (Mémoires) da Académie de Sciences de 1778, chamando mais tarde o "ar respirável" de "principe oxygine".

Numa comunicação de 1783 à Académie, mas sòmente publicada em 1786, indica quais as dificuldades que a teoria do flogisto enfrentava para explicar os fenômenos de combustão e mostra que é necessário considerar o oxigênio do ar e a evolução de calor e a emissão de luz.

Ainda em 1783 repete as experiências de Priestley e Cavendish da combustão do "ar inflamável"( hidrogênio) no ar com a formação de água.

Chega, então, à conclusão que a água é formada de hidrogênio e de oxigênio.

Os estudos da combustão incluem sistemáticamente medidas da quantidade de calor gerado nas reações.

No seu livro descreve detalhadamente suas experiências quantitativas sôbre combustão do fósforo, do carbono, do hidrogênio.

Estuda também a combustão de substâncias compostas, como a de uma vela, a do óleo de oliva, dando inclusive dados sôbre a composição ( carbono e hidrogênio) e quantidade de calor desprendido ( 1784).

No Traité Lavoisier descreve a formação e a análise dos gases atmosféricos , a combustão de corpos simples, a formação de ácidos em geral e sua nomenclatura, a formação de óxidos metálicos e a decomposição da água pelo carbono e pelo ferro, e estuda o calor desprendido em difertentes espécies de combustão.

Também aborda a combinação de substâncias combustíveis uma com as outras, faz considerações sôbre óxidos e ácidos relacionados à bases diversas e estuda a composição de substâncias vegetais e animais e sua decomposição pela ação do fogo.

Ocupa-se com os fenômenos de fermentação (fermentation putride; fermentation acéteuse) e lamenta que ainda não tem dados quantitativos precisos.

No final da 1a. parte de seu livro estuda a formação de sais neutros a partir de substâncias básicas (potassa, soda, amoníaco, giz, magnésia, barita, alumina) e dezessete metais.

Na 2a. parte dá um número grande de tabelas sôbre as reações químicas que estudou, tanto inorgânicas quanto orgânicas.

A 3a. parte fornece uma descrição minunciosa dos equipamentos e da metodologia que usou nas suas experiências.

O livro de Lavoisier teve grande aceitação sendo traduzido para todas as linguas européias e convertendo os químicos às novas idéias.

Os métodos preconizados por Lavoisier são os métodos que levaram ao surgimento da Química moderna.

A nomenclatura que introduziu foi ampliada e melhorada e constitui a linguagem moderna para representar as substâncias e compostos.

Aos 51 anos, durante a revolução francesa, foi decapitado por ter como uma de suas atividades de renda um cargo junto a uma organização de cobrança de impostos.

Lavoisier: princípios básicos da Química moderna

 

No

Traité Élémentaire de Chimie

Lavoisier introduz nova conceituação sôbre como encarar os fenômenos químicos.

Estabeleceu as bases fundamentais que permitiram remover as idéias alquímicas do cenário do estudo dos fenômenos de transformação da matéria.

A partir de suas concepções a química rápidamente tornou-se uma ciência quantitativa, com expressão rigorosamente científica e com linguagem e metodologia próprias.

Alguns princípios básicos enunciados por Lavoisier:

1)Definição de elementos químicos (substancias que não são decompostas em outras; incluem alguns óxidos , o calor e a luz) e sua descrição (forma física, densidade,cor).

Os elementos químicos são as substâncias mais simples que se obtém pela decomposição de um material.

Tais elementos podem combinar-se em proporções diversas e diferentes formando substâncias compostas diversas.

2)Descrição de compostos químicos formados pela combinação dos elementos (achava erroneamente que todo ácido contém oxigênio).

3)Nomenclatura dos compostos inorgânicos usando seus elementos constituintes.

Toda e qualquer substância composta deve possuir um nome e sòmente um.

Este nome caracteriza sòmente uma só substância.

O nome deste composto deve indicar o nome dos seus elementos constituintes.

4) Composição quantitativa dos compostos usando a massa: a balança deve ser usada para determinar as massas das substâncias antes e depois das transformações.

5)Medidas quantitativas das características térmicas dos elementos, dos compostos puros e de suas reações: a quantidade de calor envolvida na caracterização e nas transformações das substâncias deve ser medida (desenvolveu com Laplace um calorímetro de fusão de gêlo para determinar calor de combustão).

6) Estabelecimento de três leis de conservação: a das massas (a massa total das substâncias resultantes de uma transformação química é igual à massa total das substâncias iniciais), a dos elementos nas transformações químicas e a constância da composição das combinações químicas.

 

O surgimento da Química Analítica

 

Análise gravimétrica

Nas últimas décadas do século XVIII e o começo do XIX a análise química dos compostos, minerais, orgânicos e biológicos, desenvolveu-se e ampliou-se consideràvelmente.

Os métodos que usavam a balança (métodos gravimétricos) sofreram pronunciado refinamento desde a época de Lavoisier.

A balança, por sua vez, normalmente construida por exímios artesãos, sob encomenda, sofreu grande aperfeiçoamento e a partir de 1850 já era comercializada por várias firmas.

A parte quantitativa da análise foi aperfeiçoada graças aos esforços de químicos de vários países da Europa.

Na Alemanha destacou-se Martin Heinrich Klaproth (1743-1817), contemporâneo de Lavoisier, cuja preocupação principal era seguir uma metodologia analítica rigorosamente científica na determinação da proporção dos componentes nos compostos.

Para isto adotou técnicas e métodos analíticos que levaram a resultados mais rigorosos que os obtidos normalmente pelos outros químicos e suscitaram a descoberta de novos elementos.

Na análise percentual de compostos minerais, por exemplo, mostrou que muitas vezes o valor que deixava de ser considerado para totalizar 100 poderia ser atribuido a novas substâncias.

Assim, foi levado a descobrir algumas "terras": oxidos de zirconio, uranio, telurio e titanio.

Estas sómente muitos anos mais tarde forneceram os respectivos elementos obtidos por outros químicos usando métodos de redução.

Na França, Louis Nicolas Vauquelin (1763 - 1829), muito ligado a Fourcroy, trabalhava com compostos orgânicos e com análise de compostos inorgânicos.

Embora seus métodos não fossem tão rigorosos como os de Klaproth descobriu o metal cromo e uma "terra", a glicinia ou berilia, cujo metal só foi isolado muitos anos mais tarde.

Na Inglaterra, William Hyde Wollaston (1766 - 1828), um médico versado em física e química, dedicou-se ao estudo das propriedades da platina, metal já conhecido desde 1750.

Seus estudos levaram a descobrir, em 1803, o paládio e o rodio, encontrados como impurezas da platina.

Um seu associado, Smithson Tennant (1761 - 1815), que também estudava a platina, descobriu em 1804 dois novos elementos , o iridio e o osmio, em resíduos de dissolução de platina bruta com água régia.

Na Rússia, Karl Karlovitch Klaus (1796 - 1864), um farmaceutico e quimico, muito versado no estudo de metais semelhantes à platina, descobriu em 1844 o elemento rênio.

 

Análise volumétrica

 

 

Os métodos da análise química chamada volumétrica, relativa à soluções, seus equipamentos de laboratório e técnicas associadas, começaram lentamente a evoluir a partir de 1750.

Já em 1729 C.L. Geoffroy procurava determinar a "força" de vinagres indiretamente pesando a quantidade de álcali necessária para neutralizá-los.

O ponto de neutralização era determinado pela cessação do ruido da reação ou pela ausência de efervescência.

Nas décadas seguintes esta prática de neutralização foi usada para estimar a força de ácidos fortes, como o nítrico.

Também em muitos casos usava-se a mudança de côr de uma substância adicionada (indicador) como o tornassol, a curcuma ou outras.

Estas substâncias adquirem côr diferente ao se atingir o ponto de neutralização ácido-base.

Os equipamentos de vidro utilizados, cilindros graduados, pipetas, buretas graduadas volumetricamente, foram inicialmente desenvolvidos entre 1782 e 1806.

As medidas eram grosseiras e os resultados não muito confiáveis e não havia sido desenvolvida uma maneira de aferir os resultados usando-se soluções padrões.

Análises volumétricas mais precisas começaram a surgir a partir de 1824 com o trabalho de Gay-Lussac sôbre titulação quantitativa de ácidos e bases.

Mas sómente a partir de 1850 observou-se uma popularização destes métodos de análise.

Karl Friedrich Mohr (1806 - 1879), um farmacêutico muito interessado em química analítica, foi responsável por um número grande de aperfeiçoamentos dos equipamentos e métodos usados na análise gravimétrica e na volumétrica.

Desenvolveu também o uso de substâncias padrões na alcalimetria (ácido oxálico) e o chamado sal de Mohr (sulfato ferroso amoniacal) na oxidimetria.

Em 1855 publicou um livro intitulado Lehrbuch der chemisch-analytischen Tritiermethode ou Tratado do Método Titrimétrico de análise química.

Nele descreve os métodos de análise volumétrica de soluções e propõe vários melhoramentos nos procedimentos de análise.

Outros métodos de análise surgiram entre os quais um chamado de iodometria, introduzido por Bunsen a partir de 1853, para a determinação quantitativa de agentes oxidantes.

 

Faraday e a Eletroquímica

 

Michael Faraday, que fazia pesquisas em física e química, em 1833, passou a estudar a condução de eletricidade por soluções de sais em água e de sólidos, como o gêlo, e por sais minerais fundidos.

Chegou à conclusão que havia uma relação quantitativa entre a quantidade de uma substância decomposta e a quantidade de eletricidade que passava através da solução quando fazia sua eletrólise numa célula eletrolítica.

Para medir a quantidade de eletricidade desenvolveu uma célula eletrolítica especial que permitia recolher os gases que se desprendiam com a decomposição da água.

Mostrou que a quantidade de eletricidade que liberava um grama de hidrogenio liberava também quantidades específicas de outras substâncias.

Assim, para 1 grama de hidrogenio liberado, 8 gramas de oxigenio, 36 de cloro, 125 de iodo, 104 de chumbo e 58 de estanho, eram liberados na eletrólise de seus respectivos compostos.

Denominou tais quantidades de "equivalentes eletro-químicos".

Berzelius, muito ativo no estudo de pesos atômicos, não entendeu o significado da descoberta de Faraday e a ignorou.

Esta descoberta de Faraday, entretanto, 50 anos mais tarde, revelou-se de importância fundamental na determinação de pesos atômicos.

Faraday, com a colaboração de William Whewell (1794-1866), estabeleceu a terminologia usada na eletroquimica- ânions, cátions, eletrodo, catodo, eletrólito, etc., - de uso corrente.

Com a atenção voltada para outros problemas de eletricidade Faraday fez importantes descobertas como a indução magnética e ação do magnetismo sôbre a luz .

 

 

Teoria dos Radicais

 

A idéia de existência de radicais provém de Lavoisier no seu estudo dos ácidos.

No seu Traité são listados 48 ácidos, entre inorgânicos e orgânicos, com indicação do nome dos radicais que entram na sua composição.

Lavoisier supunha que todos os ácidos continham oxigênio ligado a um radical, sendo compostos binários.

Por exemplo, cita o ácide muriatique oxigené que possuiria o radical muriatique ligado ao oxigênio, o que não está correto.

No seu livro explica o conceito de radical associado a um ácido.

Assim, indica que o ácido que contém enxofre forma sulfatos com as bases salificáveis (em número de 24, dos quais 3 alcalis, 4 terres e 17 substances metalliques) e nome dos respectivos radicais para os outros 47 restantes de sua classificação.

Entre estes estão incluidas os ácidos orgânicos conhecidos na sua época, entre os quais : acético, oxálico, citrico, málico, gálico, benzoico, sucínico, canfórico, fórmico, responsáveis pela formação dos acetatos, oxalatos, etc., respectivamente.

Nos ácidos minerais o radical indicado é composto de um único elemento mas nos orgânicos era diferente.

As análises mostravam que o carbono e o hidrogenio podiam entrar em proporções diferentes com o oxigenio para formar ácidos diferentes.

A partir de 1815 Berzelius mostrou que a teoria dualística embora aplicável aos compostos inorgânicos não tinha o mesmo sucesso com os orgânicos.

Mas publica uma tabela com as formulas de alguns compostos orgânicos que incluem ácidos mas cujas proporções sòmente em alguns poucos casos estão corretas.

O conceito de radical orgânico só ganhou proeminência a partir do trabalho de Dumas e F.G. Boullay (1777 - 1869), publicado em 1828.

Nele fazem um paralelo entre compostos de etileno (C2H4) com os de radical amônia (NH3), mostrando a semelhança de comportamento entre seus radicais componentes.

A parte etilênica dos compostos seria alcalina comportando-se de forma idêntica à parte amoniacal dos compostos considerados.

Isto aconteceria , por exemplo, no ester acético, (C2H4,C2H4O2 ) e no acetato de amônia, (NH3,C2H4O2 ).

Em 1832, Justus von Liebig (1803 - 1873), notável químico orgânico que desenvolveu o método de análise elementar, e Whöler, estabeleceram a existência do radical benzoila, preparando compostos variados do mesmo, tais como o cloreto, o cianeto e outros.

Pela primeira vez obtivera-se um radical contendo oxigênio (C14H10O2 ou modernamente, C7H5O).

Segue-se um período de confusão no reconhecimento de vários radicais que foram descobertos (metila, cetila, benzoila, cinamila, cacodila, etc.) e de diferenças na representação dos compostos orgânicos por meio de fórmulas químicas.

Alguns compostos destes radicais eram perigosos: Robert Wilhelm Bunsen (1811 - 1899) , por exemplo, em 1839, trabalhando com cianeto de cacodila, sofreu sério acidente com uma explosão, perdendo um olho.

Um dos fatores responsáveis pelas discrepâncias de representação era o uso de pesos atômicos diferentes por diferentes pesquisadores.

Embora ao Hidrogênio fôsse atribuido o peso 1 por todos, alguns favoreciam o Carbono com pêso 12 (Berzelius), ou 6 (Liebig e Dumas).

Ao Oxigênio era atribuido o pêso 16, por todos, com exceção de Liebig que usava 8.

Os valores usados por Berzelius estão próximos dos valores atuais mas suas fórmulas frequentemente diferiam das dos outros pesquisadores.

Não havia consenso na representação dos compostos orgânicos embora os elementos constituintes e as proporções fossem as mesmas.

A partir de meados de 1830, Dumas e Auguste Laurent (1807 - 1853), passaram a estudar a substituição do hidrogênio por cloro, bromo e iodo, em uma variedade de compostos orgânicos.

Laurent estudava a substituição no benzeno, naftaleno e fenol tendo formulado uma teoria sôbre o assunto.

Denominou-a de teoria dos radicais fundamentais e dos radicais derivados que resultariam da substituição, numa parte nuclear daqueles, do hidrogênio.

Tal teoria, entretanto, não era muito aceita pelos químicos importantes da época, Liebig, Berzelius e Dumas.

Em 1840 Dumas propôs uma teoria, a dos tipos, que contrariava a teoria dualística, de Berzelius, e que usava as idéias de Laurent sem lhe dar crédito.

Com ela tentava justificar a substituição do hidrogênio pelo cloro em substâncias como o metano, formando o cloroformio, no ácido acético, formando ácido tricloroacético, e no acetaldeido, formando o cloral.

De um modo geral as reações das substâncias obtidas eram muito semelhantes às das originais, ou seja, do mesmo tipo.

As teorias de Laurent e de Dumas, apesar da evidência experimental que as suportava, não eram bem aceitas.

Berzelius, por exemplo, não admitia que um elemento eletronegativo pudesse fazer parte de um radical, substituindo o hidrogênio.

Era apoiado por Liebig e sugeria que em vez de substituição haveria uma transformação do radical do composto inicial em outro de composição diferente.

Liebig, por sua parte, foi levado a mudar de posição, a partir de 1837, pelo seus estudos de ácidos orgânicos que se comportavam de forma semelhante aos ácidos polibásicos inorgânicos, como os fosfóricos, estudados por Thomas Graham ( 1805 - 1869).

Graham mostrou que havia três tipos de ácidos fosfóricos que diferiam na quantidade de água combinada com o óxido de fósforo (P2O5).

Na formação de sais destes ácidos a água era substituida por uma base resultando numa relação de 1:1, 1:2 e 1:3 entre a quantidade de ácido e base.

O mesmo acontecia com ácidos do arsênico e seus derivados.

Liebig que estudava os ácidos cítrico, tartárico, málico e outros, e os seus sais, de início julgou que se comportassem como os ácidos estudados por Graham.

Chegou à conclusão que considerar que a água tinha o mesmo papel que nos compostos inorgânicos era inadequado.

Revivendo as idéias de Davy relativas ao ácido clorídrico chegou à conclusão que ácidos são compostos de hidrogênio nos quais estes podem ser substituidos por metais.

Aplica, então, este conceito aos ácidos fosforicos e mostra que os ácidos que estudava formavam sais análogos àqueles.

 

 Química Analítica

 

Métodos Instrumentais

Os métodos instrumentais básicos da Química Analítica, no século XIX , desenvolveram-se consideràvelmente na segunda metade, à partir de 1875, embora as técnicas físicas já fôssem conhecidas anteriormente.

A produção de vidros opticos de melhor qualidade permitiu, neste século, a aplicação mais frequente de refratômetros, espectroscoópios, polarímetros e microscópios, à problemas de interêsse químico.

O espectroscópio, particularmente, sofreu muitos aperfeiçoamentos que permitiram fazer análise de elementos difíceis de serem estudados usando o método de queima de Bunsen.

A química astronômica progrediu muito com o trabalho de um colega de Bunsen, Gustav Robert Kirchhoff (1824 - 1887), que em 1859 enunciou suas leis da espectroscopia.

Mostrou que um corpo incandescente emite um espectro contínuo de luz.

E que um corpo excitado produz um espectro com linhas brilhantes.

E que gases aquecidos, quando submetidos à luz branca, absorvem as mesmas cores emitidas por seus vapores quando excitados.

Usando estas leis Kirchoff e Bunsen descobriram vários elementos a partir de 1860.

Os astrônomos com uso do espectroscópio passaram a determinar a composição química das estrêlas.

Os químicos passaram a utilizá-lo com frequência nos seus estudos e nas suas análises.

A utilização da luz em análise orgânica iniciou-se com a polarimetria.

Esta técnica utiliza o fenômeno de polarização da luz , descoberta por Huygens, no século XVII.

Jean Baptiste Biot (1774 - 1862), cristalógrafo francês, em 1813, descobriu que a luz, ao atravessar uma placa de quartzo ou alguns líquidos, tem seu plano de polarização girado.

Verificou este fenômeno com a essencia de terebentina, alguns óleos naturais, como o de limão ou uma solução alcoólica de cânfora.

A partir de 1828 foram feitos vários melhoramentos nos polarímetros.

Passou-se a usar um prisma especial, invenção de William Nicol (1768 - 1851), para separar a luz polarizada incidente em dois feixes, e utilizou-se luz monocromática alguns anos mais tarde.

O polarímetro tornou-se mais popular depois que se descobriu como usar luz branca introduzindo-se no caminho optico uma cunha de quartzo compensadora.

Como o açucares são opticamente ativos, o polarímetro passou a ser adotado na análise de alimentos, particularmente na determinação da sacarose, na indústria açucareira, a partir de 1860.

O uso de luz polarizada se estendeu ao estudo do isomerismo óptico de compostos e complexos orgânicos, a partir de 1891.

Os avanços da Óptica levaram à melhoria dos microscópios, que, a partir de 1820, passaram a ser usados regularmente.

Um dos responsáveis por estes avanços foi Ernst Abbe (1840 - 1905), um físico, que em 1872 desenvolveu um condensador de luz que fica na parte inferior da platina do microscópio.

Também foi responsável, em 1886, pelo aperfeiçoamento do refratômetro, comumente usado em química orgânica.

A análise eletroquímica, baseada na eletrólise de soluções, a partir de 1865, passou a ser usada como método de análise química quantitativa.

O. Wolcott Gibbs (1822 - 1908), a partir de 1864, descreveu métodos de determinação eletrolítica de metais.

Determinou cobre, níquel, bismuto, prata, e por via indireta, a partir dos dióxidos, o manganês e o chumbo.

Este processo de análise se tornou popular tendo estudos mostrado a importância das diferenças de potencial usados na eletrodeposição.

Também surgiram melhoramentos nos métodos usados: foram desenvolvidos eletrodos rotatórios e de telas metálicas, com excelentes resultados.

Muitos destes avanços foram obtidos por Alexander Classen (1843 - 1934), na Alemanha, que publicou um livro sôbre este tipo de análise, Handbuch des chemischen Analyse durch Electrolyse.

Ao final do século XIX uma variedade considerável de instrumentos e métodos tinham sido desenvolvidos e eram regularmente usados em química analítica.

Muitos deles passaram a ser usados nas indústrias, principalmente nas de alimentos e de remédios.

A evolução do uso foi também consequência da disponibilidade de excelentes instrumentos produzidos por indústrias especiais que surgiram eainda hoje se mantém ativas.

 

 

Cronologia do desenvolvimento da Química no século 19

1800

Alessandro Volta

Produção de corrente elétrica por meios químicos

1800

William Herschel

Descoberta da radiação infra vermelho

1801

John Dalton

Lei das pressões parciais na mistura de gases

1801

Humphrey Davy

Desenvolvimento do arco elétrico

1801

Humphrey Davis

Uso de células voltaicas na decomposição de compostos

1801

A.F. Fourcroy

Métodos gerais de análise orgânica (qualitativa)

1801

J.W. Ritter e W.H. Wollaston

Descoberta da ação da luz ultravioleta sôbre cristais de cloreto de prata

1803

John Dalton

Tábua dos pesos atômicos relativos

1803

Jon Berzelius

Decomposição eletrolítica de sais.

1804

John Dalton

Teorias atômica nas reações químicas

1807

Humphrey Davis

Obtenção de sódio e potássio por eletrólise

1808

Gay-Lussac

Lei dos volumes de combinação dos gases

1808

Humphrey Davis

Obtenção de magnésio, cálcio, estrôncio e bário por eletrólise

1811

Amadeo Avogadro

Hipótese de Avogadro sôbre número de partículas em volumes iguais de gases nas mesmas condições

1812

Jon Berzelius

Teoria dualística

1813

Humphrey Davys

Contrata Michael Faraday como assistente

1815

William Prout

Hipótese de que os elementos sào compostos de hidrogênio

1815

Jon Berzelius

Calcula fórmulas de compostos orgânicos a partir de dados analíticos experimentais

1819

Eilhardt Mitscherlich

Lei do isomorfismo na cristalização de compostos

1823

Michael Faraday

Liquefação do cloro e outros gases

1823

Michel Eugéne Chevreul

Corpos graxos de origem animal

1824

Michel Eugéne Chevreul

Análise orgânica e suas aplicações

1826

Jean Baptiste Dumas

Método de medida da densidade de vapor para determinar peso atômico

1828

Friederich Whöler

Síntese da Urea e fim do Vitalismo

1829

J.W. Döbereiner

Introduz tríades de elementos e prediz pesos atômicos

1832

Justus von Liebig e F. Whöler

Descoberta do radical benzoila

1833

Michael Faraday

Estabelece a terminologia da eletroquímica

1833

Thomas Graham

Classificação dos ácidos fosfóricos

1834

David Brewster

Análise química por absorção de radiação

1844

Adolf Wilhelm Hermann Kolbe

Síntese de compostos orgânicos partindo de inorgânicos

1855

Edward Frankland

Introduz o conceito de valência na combinação de fragmentos orgânicos com metais

1853

Robert Bunsen

Inicia odesenvolvimento da análise química inorgânica instrumental com a invenção do espectroscopio

1858

Friedrich August Kelulé

Introduz o conceito de carbono tetravalente e a habilidade de átomos de carbono ligarem-se uns aos outros

1858

Stanislao Cannizaro

Aplica a hipótese de Avogadro na determinação dos pesos atômicos e moleculares

1859

Gustav Robert Kirchhoff

Estabelece as leis da espectroscopia

1860

Robert Bunsen e G.R. Kirchhoff

Descoberta do césio por via espectroscopica

1861

Robert Bunsen e G.R. Kirchhoff

Descoberta do rubídio por via espectroscopica

1861

William Crookes

Descoberta do tálio por via espectroscópica

1862

A.E. Béguyer de Chancourttois

Introduz a hélice telúrica para classificar os elementos segundo os pesos atômicos

1863

Ferdinand Reich e H.T. Richter

Descoberta do índio por via espectroscopica

1864

Lothar Meyer

Publica uma tabela incompleta precursora da tabela periodica dos elementos

1865

Alexander Reina Newlands

Tabela dos elementos segundo oitavas e descoberta da periodicidade

1869

Dmitrii Ivanovich Mendeleev

Classificação periódica dos elementos

1870

Lothar Meyer

Propriedades periódicas duplas dos elementos